Não imaginava que, depois de apenas meia hora, Sérgio também ficou sabendo daquilo.
Ele abriu a porta, esfregando as pontas dos dedos entorpecidos pelo frio.
— Uma oportunidade tão boa assim, você tem que ir.
— Eu cuido da Dora.
Júlia deu uma olhada na filha correndo alucinadamente lá fora.
— Ou você está falando isso por minha causa?
Júlia voltou a olhar para ele.
Sérgio estava sorrindo marotamente, e em seu rosto havia um brilho de forte expectativa.
— Tudo bem, tudo bem.
Ele rendeu-se levantando as mãos:
— Antes eu não ligava muito para essas coisas do seu ramo, mas sei que a exposição num programa assim faz a sua popularidade nacional aumentar bastante. Pode ficar tranquila, além de mim, a avó dela também estará lá.
— E como a distância é curta, assim que a sua apresentação acabar, eu ainda consigo ir te buscar para a ceia de Véspera de Natal.
— E isso ainda serve de pretexto para anunciar uma ótima notícia.
Júlia não entendeu.
— Que ótima notícia?
— Me dá um minuto.
Após dizer isso, Sérgio subiu as escadas sem nem trocar os sapatos, correndo em passos firmes.
Ele desceu trazendo nas mãos uma pasta de documentos.
— Abre e dá uma olhada.
Júlia tirou aquelas folhas de papel de dentro.
Entre eles estavam a cópia do CNPJ, a licença de abertura de conta bancária e uma porção de outras documentações.
— Eu abri uma empresa em seu nome.
Júlia abriu a boca para falar.
— Calma, não recuse ainda.
— Não foi para tentar nos aproximar que fiz isso.
— Mas as poucas vezes em que você participou das reuniões de projeto me trouxeram várias ideias novas. Antes, a estratégia da Oceano no mundo do entretenimento era apenas focar na marca e nos recursos, mas não tínhamos muito conhecimento de como o setor funcionava.
— Mas agora sei que o mais importante são as pessoas.
Sérgio abaixou levemente a cabeça, com um sorriso quase imperceptível nos cantos dos olhos.
Até ele próprio achava fascinante e nova aquela sua vontade de se arriscar.
Afinal, quando assumiu a Oceano, via tudo aquilo apenas como um trabalho.
Mas agora, misteriosamente, torcia para que Júlia produzisse obras cada vez melhores, que conseguisse estar no lugar onde todos os olhares se voltassem para ela.
— O seu estúdio pode ser filiado a essa nova empresa. Esta empresa não pertence à Oceano, é o meu primeiro empreendimento pessoal e, quem sabe, o último.
Sérgio tomou fôlego.
E, com toda a seriedade, perguntou:
— Sra. Júlia, gostaria de ser o seu investidor-anjo. Você me concederia essa oportunidade?
Pena que o seu pequeno templo não comportava um buda tão grande como Sérgio.
Sérgio franziu as sobrancelhas:
— Diretor Financeiro? Acho que eu tenho qualificação para isso, não?
— Se quiser, eu passo por uma entrevista.
Júlia achou que a conversa estava começando a seguir para um rumo bizarro.
Sorte que a Dora apareceu para salvar a situação.
— Papai! Você é muito folgado, me deixou trabalhando sozinha!
Sérgio ergueu uma sobrancelha.
Ele tinha visto tudo.
Dora ficava no abrigo fingindo ser uma coelhinha.
O tempo que ele ficou no andar de cima foi exatamente o mesmo tempo que Dora ficou deitada lá dentro.
E ainda disfarçava a enrolação com tanta audácia!
Mas tudo bem, quem mandou ela ser a sua filha?
Sérgio foi puxado por Dora para o andar de baixo.
Dois minutos depois, um 'ding' soou.
Júlia tinha recebido uma mensagem de texto.
'Diretora Guedes, está combinado, Funcionário 001.'

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