Dora perguntou em voz baixa:
— Papai, você está chorando?
A menininha acariciou a cabeça de Sérgio.
— Não chore, não chore, quando a gente perde alguma coisa, é só comprar de novo.
Sérgio limpou os olhos com as costas da mão:
— Eu não estou chorando.
Ele ajeitou o banheiro, apagou a luz e levou a filha de volta para o quarto, segurando a mãozinha dela.
No meio do caminho, subitamente se lembrou do que significava a "coisa que a gente perde".
Ele levou a mão com tudo ao bolso da camisa e percebeu que vestia um pijama.
Correu às pressas de volta ao quarto e procurou com atenção em todos os cantos.
Mas não achou em lugar nenhum.
— Papai, está procurando as alianças? Caíram dentro do bueiro.
— A mamãe falou que amanhã manda alguém pescar.
O rosto de Sérgio mudou de cor; ele enfiou qualquer casaco e, agachando-se, disse:
— Dora, seja uma boa menina e fique aqui.
— Eu já sei.
Uma vara de pesca, dois cabides de roupa.
Sérgio desceu as escadas montando uma ferramenta improvisada para resgatar os anéis.
Ele não se lembrava muito bem qual era o bueiro e teve que usar a lanterna do celular para procurar por um tempo.
Felizmente as alianças estavam presas pelo fio vermelho.
Quando Júlia foi procurá-lo, deparou-se com Sérgio usando calça de pijama, chinelos e um paletó de alfaiataria valiosíssimo, agindo de forma furtiva à beira do bueiro.
— Sérgio.
— Hum.
Sérgio segurava as alianças na palma das mãos, com um ar de pura alegria.
Na verdade, Júlia já o observava há algum tempo.
Sérgio continuou agarrado aos anéis, estático.
A mão que Júlia um dia usou para usar a aliança de casamento fechou-se de leve.
Alguns segundos depois.
Sérgio guardou os anéis de novo.
— Vamos subir, aqui embaixo está frio.
— Vamos.
Júlia o seguiu.
— No mínimo, você não deveria ter permitido que o seu pai se valesse de truques tão baixos com a minha filha.
— Eu não sabia disso com antecedência!
Sérgio ajeitou-se numa posição que lhe provocasse menos desconforto.
— Dizer que não sabia é problema seu. O que eu analiso é o resultado.
— E tem mais: você é você, e Arthur Franco é Arthur Franco.
— Eu disse que pouparia a Império Mídia por consideração a Júlia, mas por acaso eu afirmei que não miraria no Grupo Franco?
— Você... Esqueça!
Lucas deu um suspiro profundo.
E baixou a voz.
— Eu resolvo isso, só me dê mais um tempo.
Sérgio riu e soltou a palavra friamente:
— Não.
— O que diabos você quer?!
— A questão não é o que eu quero, e sim o que Arthur Franco quer.
— O Diretor Franco é muito calculista, botou as mãos no exame de sangue da Dora, mas não se atreve a torná-lo público. Isso não é porque está apavorado? Quanto mais eu forçar, mais ele se agarra a esse trunfo.

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