Dora brincou sozinha por um tempo.
Ao ver que o céu já estava escurecendo, não resistiu e acariciou a barriguinha.
— Mamãe, o papai ainda não vai voltar?
— Eu acho que estou com um pouquinho de fome.
Júlia removeu apressadamente o USB conectado ao computador e, ao sair do escritório, colidiu de frente com a filha.
Com a seriedade de uma pequena adulta, Dora indagou, preocupada:
— Será que o papai encontrou algum homem mau?
— Mamãe, você não disse que, quando a gente encontra um homem mau, tem que ligar pra você? O papai te ligou?
Júlia não soube se ria ou se chorava.
— Não.
— Por que não?
Júlia permaneceu em silêncio por um instante.
Pensou consigo mesma que já era uma bênção Sérgio não agir como o "homem mau" que procura problemas para os outros. Como ele estaria em perigo?
Além disso, ele era um homem adulto e maduro.
Júlia tranquilizou a filha com algumas palavras e, a pedido da pequena, enviou uma mensagem de texto para Sérgio.
— Eu e a Dora fomos para casa. Ela está um pouco preocupada com você, está tudo bem?
Resolver o problema da fome da filha era a prioridade máxima.
Após enviar a mensagem, Júlia foi para casa e preparou uma refeição rápida.
Cozinhou inhame no vapor, bateu no liquidificador com grãos variados para fazer um mingau espesso e macio, adicionando uma gota de óleo de nozes.
Acompanhou com pedaços de robalo cozidos no vapor e uma mistura de tofu, cogumelos e camarões frescos.
Dora devorou a comida com vontade.
Júlia secou as mãos, olhou para o celular e notou que Sérgio ainda não havia respondido.
Seus dedos hesitaram sobre o botão de envio por um momento, mas, no fim, ela não mandou mais nenhuma mensagem.
Após o jantar, ela desceu com o lixo da cozinha, planejando passar na casa de Sérgio. Se ele não fosse voltar naquela noite, ela poderia terminar de copiar os dados restantes do projeto.
Porém, assim que jogou o lixo fora e se virou, esbarrou no homem que acabara de chegar da rua.
Sérgio parou de andar ao avistar Júlia.
Júlia, por sua vez, notou de imediato as manchas de sangue na camisa de Sérgio.
Seus olhos não conseguiram desviar e fixaram-se ali por dois longos segundos.
— O que aconteceu?
O coração de Sérgio disparou. Ele rapidamente puxou o paletó para cima com força, tentando esconder as manchas.
— Hmm... teve uma briga no restaurante, fui tentar separar e acabei me machucando acidentalmente com cacos de vidro.
Enquanto falava, ele estendeu a mão com o curativo.
— No restaurante?
Júlia virou-se para voltar.
Sérgio apressou-se em segui-la.
— Não é isso. Eu não deixei você e a Dora sozinhas em casa de propósito para ir ao restaurante, e nem sequer comi nada.
— Eu realmente só fui para resolver alguns assuntos.
Sérgio se ofereceu para apertar o botão do elevador.
— Hum.
Júlia cruzou um dos braços, segurando-o com a outra mão enquanto deixava o celular pendurado frouxamente na palma, e abaixou a cabeça por um momento.
— A Dora estava um pouco preocupada com você.
— Então... então eu vou ligar para ela agora mesmo.
Sérgio lançou um olhar furtivo para a expressão de Júlia.
E não resistiu a perguntar:
— E você?
— O quê?
Sérgio repetiu:
— A Dora estava muito preocupada comigo, mas e você?
Júlia inclinou a cabeça e apertou os lábios com ar de severidade.
No fundo de seus olhos, porém, espalhou-se uma emoção de quem estava completamente sem palavras e desamparada com a situação.
Sérgio deu um sorriso antes que ela pudesse repreendê-lo.
— Vou considerar que você também estava.
— Pela sua reação quando viu o sangue na minha camisa agora a pouco, você estava.
Ele completou a própria lógica com confiança.
Aquela era a primeira vez que Júlia o via exibir aquele tipo de sorriso bobo.
O elevador parou no andar de Sérgio.
— Há cerca de uma hora, aquele computador na sua casa foi manipulado. Os conteúdos envolvidos eram altamente sensíveis. Já enviei a lista das operações para o seu e-mail.
Sérgio perdeu o fôlego por um instante.
Não pôde evitar erguer o olhar e encarar Júlia.
— Entendido.
Franzindo o cenho, Sérgio ordenou a Éder:
— Não comente sobre isso com mais ninguém. E avise o departamento de segurança do grupo que fui eu que utilizei meus próprios equipamentos de forma inadequada por acidente.
— Certo, Diretor Santana.
Júlia passou ao lado da adega.
Sem sequer notar que, repousado sobre a mesa, estava o chá branco da sua preferência.
Também não reparou nas duas belas plantas verdes no balcão, que eram de espécies que Júlia já havia tentado cultivar, mas acabara falhando por serem muito delicadas.
Sérgio, no princípio, estava como um jovem tolo segurando uma caixa de presentes.
Com uma mistura de alegria e ansiedade, ansiava ver as expressões dela ao descobrir aqueles detalhes sutis que havia preparado.
Porém, aquela felicidade leve ainda não havia pousado e já estava congelada pela metade.
Inegavelmente.
A única razão pela qual Júlia aceitou o convite para subir.
A razão de enviar-lhe mensagens perguntando se ele estava seguro.
E até mesmo concordar em levar a filha ali para comer, tudo era mentira, tudo possuía um propósito oculto.
Sérgio sentiu o estômago começar a doer novamente.
Junto com todo o peito.
Ele só descobriu naquele instante.
Como era sentir o próprio coração, cheio de calor e cuidado, ser esmagado por um balde de água fria jogado por alguém.
Sérgio abaixou a cabeça, deixando escapar um sorriso zombeteiro.
E, por um segundo, não soube de quem devia sentir pena: dele próprio ou de Júlia, que passara anos recebendo dele baldes de água fria.
— Qual garrafa?
Júlia virou-se para trás.
Como ele permaneceu em silêncio, repetiu com uma voz suave:
— Onde está esse bom vinho do qual você falou?

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