Júlia agachou-se para abraçar a filha, recomendando que ela obedecesse à bisavó.
— Mamãe, vou sentir sua falta.
Dora encostou a cabeça no ombro de Sérgio e acenou para Júlia.
O secretário Éder e o motorista já esperavam lá embaixo, em frente ao prédio.
Quando Sérgio saiu pela porta principal, não conseguiu evitar apoiar-se no batente para equilibrar o corpo.
Ele passou Dora para os braços de Éder.
O pouco de compostura que ainda forçava em manter desmoronou em um instante.
— Diretor Santana, o advogado acabou de ligar, dizendo... O que aconteceu com o senhor?
A testa de Sérgio estava coberta de suor frio.
Cada centímetro de seu estômago contorcia-se em agonia; a sensação frenética de queimação fazia sua visão escurecer em ondas.
Sérgio apontou para a porta do carro, indicando que entrassem primeiro com a criança.
Ele próprio caminhou cambaleante até um canto e, apoiando-se no tronco de uma árvore, começou a vomitar.
O ácido gástrico subiu impiedosamente.
Sérgio sentia que sua camisa já estava completamente ensopada.
Entre acessos de tosse engasgada, um jato de um líquido doce e metálico jorrou de sua garganta.
Pela luz fraca do poste, ele viu aquele vermelho escuro.
Sérgio arfava pesadamente.
Escorregou pelo tronco da árvore até se agachar.
Aquela dor lancinante parecia um lembrete impiedoso de que o tempo que lhe restava era pouco.
Sérgio cobriu os olhos com as costas da mão.
— Diretor Santana, o senhor está vomitando sangue?!
Éder ficou completamente perplexo.
Sérgio usou a garrafinha de água mineral que ele lhe entregou para enxaguar a boca.
Com a voz rouca, murmurou:
— É doença.
— Ninguém pode saber disso.
— No seu estado, o senhor precisa ir ao hospital imediatamente!
— Não tem cura.
Os ombros de Sérgio ainda tremiam levemente.
A palidez em seu rosto era assustadora.
Éder ficou estagnado.
Como assim não tinha cura?
Sérgio ficou em silêncio por um instante:
— O que o advogado disse?
— Ele disse que o Testamento que o senhor alterou recentemente, bem como o Acordo de Custódia da senhorita Dora, já foram devidamente registrados em cartório.
— Mas agora, tudo o que posso fazer é isso.
Sérgio ergueu levemente o rosto.
Com um sorriso mais sofrido do que se estivesse chorando, perguntou:
— Você acha que isso é o meu castigo?
Éder apenas balançou a cabeça devagar, incapaz de proferir uma única palavra.
Dora, sem conseguir esperar mais, abaixou a janela do carro.
— Papai, não vamos embora?
Dora inclinou a cabecinha, com seus olhos enormes brilhando como jabuticabas.
Quando ficava calada, ela era o retrato perfeito de Sérgio.
Éder sentiu um aperto doloroso no peito.
Sérgio, porém, já havia forçado um sorriso e se erguido com a ajuda da árvore.
— Vamos, vamos para casa.
Ele entrou no carro e abraçou a filha com ternura.
— Papai?
Sérgio apertou de leve as bochechas macias dela.
Por fim, não conseguiu se segurar:
— Dora, se no futuro... caso o papai não esteja mais com você, não se esqueça de mim, está bem?

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