Durante o trabalho, Júlia Guedes frequentemente ouvia os outros a chamarem assim.
Mas, de alguma forma, ouvir aquele nome saindo da boca de Sérgio Santana soava estranho.
Ele falava devagar, como se estivesse saboreando cada sílaba com cuidado.
O coração de Júlia deu um salto, e ela logo quis fechar a porta.
— Hoje o caldo é apimentado, você não vai aguentar comer.
— Eu aguento.
Sérgio enfiou a mão na fresta da porta, ficando ali na maior cara de pau.
O aroma picante invadia o ar.
Para quem gostava, era o paraíso; para quem não gostava, um verdadeiro inferno.
Dora segurava a tigela com as duas mãozinhas e, erguendo a cabeça, perguntou com sua voz doce e infantil:
— Papai, você consegue comer mesmo? A mamãe disse que você não gosta de pimenta.
Ao ouvir isso, Sérgio pausou seus movimentos.
Ele não esperava que Júlia ainda mencionasse as preferências dele para a criança.
Seus olhos se encheram de um sorriso contido.
Júlia fingiu não ouvir.
Impulsionado por uma coragem inexplicável, Sérgio forçou a barra:
— Consigo sim, o papai aguenta bem pimenta. Daqui para frente, tudo o que a mamãe gostar, o papai também vai gostar.
Assim que ele disse aquilo, Júlia não pôde evitar virar o rosto, revelando uma expressão de surpresa.
Ela conhecia Sérgio havia tantos anos, e as preferências dele não podiam ser mais claras para ela.
Os hábitos alimentares dele eram tão regrados quanto os de um padre na igreja.
Ainda mais com seu estômago ruim, ele não conseguia tolerar nem a menor quantidade de pimenta.
— É sério?
Dora pensou um pouco e, com dor no coração, abriu mão de seu tesouro.
— Então, papai, a carne picante que a Dora acabou de cozinhar é para você.
Júlia ergueu o olhar.
Sérgio olhou para a carne vermelha na tigela, coberta de pimenta e especiarias, e engoliu em seco.
Ele fingiu que sua expressão não havia mudado.
No instante em que colocou na boca, um sabor ardente subiu do fundo da língua direto para a cavidade nasal.
Parecia que tinham instalado uma enorme chaminé em suas vias respiratórias.
— Cof, cof, cof!
Sérgio cerrou os punhos com força; seu corpo, sempre tão ereto, retorceu-se com a ardência.
Lembrou-se do passado, de quando fazia horas extras até tarde e, se Júlia estivesse em casa, ela também cozinhava aquela mesma sobremesa quentinha para ele.
Só que ele sempre considerou aquilo como uma obrigação dela, nunca valorizando verdadeiramente.
— Júlia.
Sérgio apertou os lábios.
— Me desculpe, eu antigamente...
Júlia puxou a mão de volta, sem a menor vontade de reviver o passado com ele.
— Se não aguenta comer, não coma. Ninguém está te obrigando a fingir.
— Combinamos que você buscaria a menina à noite. Da próxima vez, por favor, seja pontual e não chegue mais cedo.
A mão de Sérgio caiu inerte ao lado do corpo:
— Eu só... queria ter uma boa refeição com vocês duas.
Por causa disso, seu estômago frágil como papel parecia ter sido amassado sem piedade.
O estômago doía, mas o coração doía ainda mais.
Júlia franziu a testa e não disse nada, virando-se para arrumar as coisas de Dora.
Depois da refeição, Sérgio até queria ficar mais um pouco.
Mas ele não estava aguentando, temendo acabar vomitando ali mesmo.

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