Sérgio Santana torcia os lábios e se recusava a olhar para o médico, com uma expressão idêntica à de Dora.
Júlia Guedes não sabia se ficava irritada ou se achava graça.
Ela abaixou a cabeça.
Só conseguia ver que os ombros de Sérgio tremiam levemente; seus lábios estavam pálidos, e até sua respiração soava pesada e travada.
Quase não havia vestígios de atuação.
Júlia não disse nada na hora, mas depois de pensar um pouco, acabou ligando para o médico da família de Sérgio.
— Dr. Mendes, depois do último acidente de carro, Sérgio sentiu algum desconforto no corpo?
O Dr. Mendes também não sabia muito bem sobre o assunto.
Ele não era muito diferente de um médico plantonista.
A iniciativa sempre estava nas mãos do paciente.
— Senhora, o Diretor Santana já tinha problemas de estômago antes. No acidente, ele se machucou muito e deveria ter ficado internado por mais alguns dias. Mas assim que soube que a senhora estava passando por dificuldades na empresa, ele saiu correndo na mesma hora, ignorando a própria saúde.
Ao ouvir isso, Júlia sentiu-se culpada mais uma vez.
Seria mentira dizer que não ficou mexida, afinal, entrar na frente de um carro para protegê-la foi o mesmo que arriscar a vida.
Ela pediu ao Dr. Mendes que tomasse a iniciativa de entrar em contato com Sérgio para cuidar da saúde dele.
Júlia olhou para as sombras das árvores e as luzes de neon recuando velozmente pela janela do carro, e não pôde deixar de ficar distraída.
Sua relação com Sérgio parecia um emaranhado impossível de cortar ou organizar.
Eles pareciam duas linhas onduladas seguindo suas próprias trajetórias.
Cruzando-se e separando-se.
Mas nunca conseguindo se encontrar no momento certo.
Sérgio apertou a ponta do nariz quando atendeu a ligação do Dr. Mendes.
E, ao ouvir que a ordem tinha vindo de Júlia, não pôde evitar um leve sorriso.
No fim das contas, ela ainda se importava com ele.
— Diretor Santana, a senhora pediu que o senhor, sem falta, viesse ao hospital para um check-up.
— Não é necessário.
Sérgio apoiou uma das mãos no braço da cadeira, acariciando-o lentamente.
— Depois do acidente, eu fiz alguns exames e já recebi o diagnóstico.
— O senhor quer dizer...
— Sim, câncer de estômago.
A voz de Sérgio carregava uma calma reprimida.
Como a superfície do mar, tão profunda que se torna escura.
Que seu nome ficasse nas buscas dos sites de fofoca por três dias e três noites, com as pessoas dizendo que ele teve o que merecia.
Tudo isso seria melhor do que ver Júlia triste e consumida pela culpa.
— Dr. Mendes, esse assunto morre com você. Não diga uma única palavra à Júlia.
O Dr. Mendes soltou um suspiro impotente.
Ele nunca imaginou aquilo.
O antes inabalável Diretor Santana estava usando uma voz que parecia forte, mas que, na verdade, era profundamente humilde, para dizer esse tipo de coisa.
No auge do inverno, escurecia muito cedo.
Enquanto cozinhava, Júlia deixou Dora desenhando na sala.
Muitas vezes, ao preparar os ingredientes, ela levantava os olhos e via as luzes acesas de milhares de casas.
Dora apontava para longe e dizia: "Que lindo, parecem estrelinhas com uma personalidade muito boa."
Júlia perguntava: "Por que elas têm uma personalidade muito boa?"
As respostas da menina sempre surpreendiam.
— Porque as luzes brancas são bem brilhantes e parecem superfortes, mas as laranjas parecem tão gentis, igual a você, mamãe.
Júlia sempre sorria.
Mas, nos últimos dias, Dora estava falando menos, sempre debruçada diante das janelas do chão ao teto, olhando para fora com o olhar vago.

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