O clima entre os dois ficou tenso.
Júlia Guedes olhou silenciosamente para Sérgio Santana, querendo perguntar: não era ridículo demais falar de "confiança" entre os dois?
A última vez que havia sido usada fora há poucos dias.
No entanto.
As pupilas escuras de Sérgio a encaravam, imóveis.
Fez Júlia lembrar do desespero e da fragilidade de Dora quando via na televisão um animalzinho que não podia ser salvo.
Pai e filha eram, de fato, muito parecidos.
Júlia fraquejou por apenas um instante e balançou a cabeça.
— Eu não vou mais acreditar, Sérgio, você sabe disso.
— Além disso, quero que um advogado faça a anulação da procuração da empresa, a autenticação dos meus bens pessoais e uma auditoria nos seus.
— Eu já disse que não vou tirar um centavo do seu dinheiro, mas não tente brigar pela guarda da criança.
Sua voz era lógica e clara, sem deixar espaço para qualquer negociação.
Os olhos de Sérgio ficaram levemente marejados.
Júlia desviou o olhar, evitando encará-lo.
Ela mordeu suavemente o interior do lábio.
Para se manter lúcida.
Não queria sentir pena de Sérgio pela expressão que ele tinha agora.
Ela já havia experimentado antes qual era o resultado de sentir pena de um homem.
Havia muitos documentos sobre a mesa.
Júlia procurou entre eles e encontrou o acordo de custódia que Sérgio mencionara.
Ao ver que já estava assinado, a angústia em seu peito se dissipou em grande parte.
Ela deu uma lida e constatou que não havia grandes problemas.
— Vou pedir para um advogado revisar.
— Além disso, Dora e eu vamos sair da mansão. Antes que o acordo de custódia entre em vigor, é melhor você não vir visitá-la por enquanto.
— Não!
Sérgio agarrou firmemente o pulso de Júlia.
Sua respiração estava pesada.
Porque ele sabia.
Cada palavra de Júlia, cada atitude dela dizia:
— Eu não vou lhe dar a chance de manipular o dinheiro.
— Eu não confio em você, nem um pouco.
Júlia arqueou levemente a sobrancelha, seu olhar frio caindo sobre Sérgio com um questionamento mudo.
— Agora você pode voltar a ser o diretor, e no futuro, pode visitá-la como o pai de Dora.
Depois de ouvir isso, Sérgio ficou em silêncio por um longo tempo.
Como se toda a sua força tivesse sido drenada, seus dedos se soltaram e caíram frouxos.
Depois que Júlia saiu com o acordo, o quarto mergulhou em um silêncio mortal.
Ele ficou olhando inexpressivamente para os girassóis perto da janela.
Tinha comprado os pequenos vasos sabendo que Júlia gostava de cultivar flores e plantas.
Já estavam um pouco murchos.
Assim como a relação entre eles.
O sol da manhã não podia salvar os girassóis que murcharam no meio da noite.
Era tarde demais para tudo.
No dia em que Júlia saiu da mansão, Sérgio ficou assistindo do andar de cima.
Ele viu Júlia se despedir da Dona Eunice e da matriarca.
A viu puxando a mala sozinha e entrando no carro.
E também Dora.
Que acenou suavemente na direção do andar de cima.
Foi só muito tempo depois que Sérgio tomou coragem para abrir a porta do quarto que Dora havia usado.

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