Quando Alícia acordou, havia alguém sentado à beira de sua cama.
Sujo de poeira e fuligem, a figura a assustou.
— Você... como voltou? — Ao abrir a boca, sentiu a garganta seca e áspera, engolir saliva parecia engolir lâminas.
Narciso franziu a testa ao ouvir aquela voz rouca e desagradável. Levantou-se, serviu um copo de água morna e caminhou até a cama, pronto para ajudá-la a beber.
A primeira reação de Alícia foi perceber que beber deitada seria incômodo, e provavelmente não havia canudos no quarto.
Antes que Narciso pudesse dizer algo, ela se adiantou:
— Eu vou abrir a boca e você despeja a água devagar. Não vire muito, senão eu engasgo.
A mão de Narciso, segurando o copo, parou no ar. Ele visualizou automaticamente a cena que ela descrevera e estalou a língua:
— Você tem algum problema, não tem?
Enquanto falava, sentou-se na beira da cama, ajudou-a a se erguer e a apoiou contra seu peito. Em seguida, encostou a borda do copo nos lábios secos e descamados dela.
— Você é alérgica a romance, por acaso?
— Nós duas somos irmãs... — Alícia começou a retrucar, mas pensou melhor e calou-se, continuando a beber.
Só depois de terminar a água é que ela disse:
— Com essa sua cara imunda, fica difícil sentir qualquer romance. Você não foi filmar? Por que mudou de profissão para minerador de carvão?
Narciso achou que a boca de Alícia era capaz de matar alguém de raiva, faltou pouco para chamá-la de ingrata.
— Acabei de sair de uma cena de explosão. Assim que soube que você estava em perigo, voltei correndo sem nem lavar o rosto, e você ainda reclama?
Alícia sabia, claro, que ele estava filmando. A provocação sobre a mineração foi apenas uma tentativa deliberada de aliviar a tensão.
No fundo, o sequestro fora fruto de sua negligência, e ver Narciso com aquela cara feia a deixava com a consciência pesada.
— Grande coisa — disse Alícia, com fingida indiferença.
Narciso abriu a porta e, como esperado, viu Yolanda sentada em sua cadeira de rodas.
Ele esboçou um sorriso irônico, fechou a porta atrás de si, colocou a cadeira no corredor e sentou-se de pernas abertas, bem de frente para ela.
Com as longas pernas cruzadas de forma displicente, a aura do Sr. Simões manifestou-se por completo.
— Sentei na cadeira para não dizerem que estou te intimidando de cima. Assim você não precisa levantar a cabeça para me olhar — disse Narciso, fingindo uma consideração excessiva.
Mas Yolanda crescera com ele. Sabia que, se Narciso fosse realmente atencioso, não existiria sarcasmo no mundo.
Narciso sempre fora parcial desde criança, e toda a sua parcialidade pendia para Alícia. Afinal, ele conhecera Alícia primeiro.
E ela, Yolanda, só se aproximara dele por causa de Alícia.
— A Alícia já acordou?
— O que te interessa? — Narciso cruzou os braços. Mesmo sentado, com seu mais de um metro e oitenta, ele parecia muito maior que ela. Olhou-a de cima a baixo com desdém. — Se isso fosse uma novela de época, você seria só a outra. Veio aqui prestar contas pra quem? Veio prestar reverência a quem?

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