Após acompanhar a Avó Lourenço no café da manhã, Alícia preparou-se para sair. Como não podia dirigir devido ao ferimento na perna, pediu ao mordomo que providenciasse um carro.
Enquanto esperava, tirou da bolsa uma pomada para inchaço.
Estava sobre a mesa do lado de fora do quarto quando acordou naquela manhã.
Era a mesma pomada que a babá usava nela no Jardim Sombrio. Ela não sabia quem a havia deixado ali.
Caminhou até o pátio interno e parou, erguendo o olhar para a magnólia branca de dois andares à sua frente.
As magnólias da Cidade Linvar costumavam florescer no auge em setembro, agora em dezembro, os galhos estavam despidos.
Lembrou-se de que, quando chegou à Família Lourenço, as magnólias estavam em flor.
Ela tinha sete anos, Kylen, doze.
Naquele dia de sol, Kylen estava sob a árvore de magnólia ouvindo a apresentação dos empregados. Ele apenas lançou um olhar indiferente para ela e disse uma única frase: "Desde que não me incomode, tudo bem".
— A cunhada tem um gosto refinado. O quintal está pegando fogo e você ainda tem serenidade para admirar uma árvore seca que não tem nada.
Uma voz carregada de ironia fria soou atrás dela.
Alícia não precisou se virar para saber que era Alcides Lourenço, primo de Kylen e membro da segunda linhagem da Família Lourenço.
Alcides sempre fora desafeto de Kylen. Sem vontade de dar atenção a ele, Alícia fez menção de sair.
— Ei... — Alcides deu uma passada larga e estendeu o braço, bloqueando o caminho dela com um sorriso ambíguo.
— Não quer saber onde o Kylen instalou a Yolanda?
Alícia estacou.
Observando as costas dela, o homem sorriu de canto, caminhou calmamente até ficar à sua frente, baixou a cabeça e ergueu uma sobrancelha.
— Afinal, vocês estão casados há três anos. Meu primo é realmente cruel...
Alícia colocou as mãos nos bolsos e o interrompeu:
— O que acontece entre mim e o Kylen é assunto de marido e mulher, não diz respeito a você. Se tem tempo para se intrometer na vida alheia, deveria gastá-lo estudando como se firmar no Grupo Financeiro Lourenço.
A frase feriu o orgulho de Alcides.
Alícia era repórter sênior no departamento de jornalismo da TV, especializada em investigações sociais. Dedicava-se a expor empresas corruptas e estabelecimentos irregulares, só nesta última categoria, já havia resgatado inúmeros jovens em situação de risco.
Assim que chegou à redação, foi chamada pelo Diretor Barros.
O Diretor Barros fechou a porta do escritório, pediu que ela se sentasse e a olhou, hesitante.
Diante do olhar sincero e confuso de Alícia, ele suspirou e disse:
— Alícia, tenho algo para te contar. Identificamos quem te agrediu, mas...
— Eles têm as costas quentes? — Alícia não se surpreendeu. Quem ousava bater em repórter ou era estúpido ou tinha um padrinho forte.
O Diretor Barros serviu um copo de água e colocou à frente dela.
Em seguida, disse com pesar:
— Busquei informações por toda parte. Quem mandou bater foi o irmão da ex-namorada do Kylen. O Kylen interveio por ele. Os três homens que te bateram também foram protegidos. Há gente da Família Lourenço na delegacia...
Alícia mal ouviu o restante do que ele disse.

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