Os fragmentos de memória antes do desmaio foram se encaixando aos poucos. O pé da barriga latejava com uma dor incômoda.
Ao virar o rosto, deparou-se com alguém sentado no sofá do quarto. O homem estava encostado, e não dava para saber se apenas descansava os olhos ou se dormia.
Seus lábios finos estavam ligeiramente comprimidos; com a cabeça levemente inclinada para trás, a linha do maxilar marcante e bem definida lembrava a obra-prima de um escultor.
Houve uma época em que ela era perdidamente apaixonada por aquele rosto.
O desconforto no ventre ia e vinha em ondas. Ela franziu a testa ao sentir, logo em seguida, leves fluxos quentes descendo do baixo ventre.
Num instinto automático, virou-se de lado, pronta para se levantar. O movimento na cama despertou o homem no sofá.
Assim que abriu os olhos e a viu afastando o cobertor para sair da cama, o olhar de Kylen obscureceu.
Ele se levantou, aproximou-se da cama e segurou a beirada da coberta que ela afastava.
— É tão difícil assim olhar para mim?
Alícia mordeu os lábios. Kylen claramente havia interpretado mal a situação. Sendo mulher, ela sabia muito bem o que era aquele fluxo quente; só queria se levantar depressa para evitar manchar a roupa e os lençóis do hospital.
Ele pensara que ela estava desesperada para ir embora.
Mesmo assim, ela não se deu ao trabalho de explicar. Apertou o cobertor com as mãos e, de cabeça baixa, tentou calçar os sapatos.
No entanto, sentia-se confusa: não havia menstruado dias atrás?
Achou que já tivesse acabado. Por que a hemorragia voltara?
Pelo visto, precisaria cuidar seriamente da saúde assim que aquele ciclo acabasse.
De repente, mais um jato quente desceu.
Dessa vez, notou com clareza que havia algo forrando a sua roupa íntima.
Sobressaltou-se. Quem tinha colocado o absorvente nela?
Kylen não deixou escapar nenhum dos seus pequenos gestos, incluindo a forma como ela se mexeu inquieta na cama, parecendo lidar com algum incômodo ou dor abdominal.
Ele comprimiu os lábios antes de perguntar:
— Eu não coloquei direito?
A mente de Alícia entrou em pane. Tinha sido ele mesmo!
Naquele instante, Vinicius bateu à porta e entrou.
Ele trazia uma xícara de chá quente e, ao notar que Alícia havia despertado, abaixou levemente a cabeça em respeito.
— Você não tem nenhuma obrigação ou dever de pagar pelas minhas despesas médicas. Não é natural que eu te devolva o dinheiro? — retrucou Alícia, encarando-o com indiferença.
— Sem obrigação, sem dever? — Kylen repetiu as palavras dela, reprimindo outras emoções no fundo do seu olhar sombrio.
Os olhos de Alícia começaram a arder. Ter sido enganada por três anos quase a fizera perder a razão. As cólicas ficaram cada vez mais intensas, forçando-a a se apoiar na barra da cama para não cair.
Kylen franziu a testa e estendeu a mão para ampará-la.
— Não encoste em mim! — gritou ela rispidamente. Seus olhos, antes apenas marejados, ficaram vermelhos num piscar de olhos.
Consumida pela humilhação, tremia de forma incontrolável enquanto exigia, com a voz embargada:
— Kylen, por que você me enganou?
— Nesses três anos, você me fez acreditar que eu era realmente a Sra. Lourenço. Foi divertido brincar comigo desse jeito?!
Então era isso.
Era a isso que ela se referia ao falar de sem obrigação, sem dever.
O semblante de Kylen escureceu gradualmente.
— Você entrou com o pedido de divórcio?

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