— A Família Simões não vai atrás de Yolanda, e você para de assediar a Alícia.
Alícia, que já havia chegado à van executiva, parou bruscamente ao ouvir essas palavras. Virou-se para observar os dois homens negociando no meio da estrada.
Exatamente após Nelso terminar a frase, Kylen virou a cabeça e olhou na direção dela.
Os traços do rosto do homem eram marcantes e profundos. Com a visão recuperada e sem a barreira das lentes dos óculos, seus olhos exibiam a frieza cortante de uma fera predadora, espreitando silenciosamente sob a noite, aguardando o momento exato de dar o bote.
A luz dos altos postes da avenida filtrava-se pelos galhos nus das árvores, banhando-o, mas nem um pingo daquela claridade penetrava seus olhos.
O olhar dele talvez tenha pousado nela por um milissegundo, ou talvez tenha sido apenas um vislumbre fugaz antes de ser desviado.
Perto da porta do carro, Hélder falou para avisá-la:
— Sra. Serra, está frio lá fora. Entre no carro, Narciso está lá dentro.
Ela voltou a si, pisou no estribo e subiu no veículo.
Hélder entrou logo atrás e fechou a porta.
O aquecedor estava ligado no interior da van. Alícia avistou imediatamente Narciso deitado, coberto por uma manta, com o rosto pálido e os lábios sem cor.
Ao vê-la, Narciso sorriu.
Parecendo não ter forças nem para sorrir, forçou o canto da boca e disse fracamente:
— Que cara é essa? Venha cá.
— O médico te deu alta para você estar aqui?
— Eu pedi licença.
Uma licença divina, com certeza!
Alícia se aproximou e sentou-se ao seu lado. Puxou a manta até o peito dele com a delicadeza de quem cuida de uma criança.
De repente, Narciso segurou sua mão direita. O sorriso sumiu de seus olhos, substituído por uma expressão fria:
— O que aconteceu com a sua mão?
O curativo enrolado em volta de seu polegar havia sido claramente feito por alguém experiente.
Se contasse que Kylen atirara para desarmá-la, rasgando a pele de sua mão devido ao tranco da arma, Narciso sem dúvida arrastaria seu corpo ferido em busca de vingança contra Kylen.
Mais um resgate na sala de cirurgia, e a vida de Narciso chegaria ao fim.
Alícia balançou a cabeça. Recordando as palavras recém-ouvidas, cravou o olhar em Narciso:
— Aquele acordo que o Nelso propôs ao Kylen... De quem foi a ideia?
Quando ela encarava alguém daquele jeito, emitia uma aura de pura opressão. Até mesmo Hélder, ali ao lado, não ousava respirar forte.
Narciso a observou, o pomo de Adão movendo-se na garganta:
— Foi minha.
Eu sabia!
O turbilhão de emoções fez seus olhos marejarem descontroladamente:
— Você não quer que me maltratem, mas eu tenho que ficar de braços cruzados vendo você engolir a seco todo esse prejuízo?
— Que prejuízo o quê? Isso é só uma tática. Espere e verá. Um dia eu acabo com aquela Yolanda. — Como havia falado de modo entusiasmado, Narciso repuxou o ferimento no abdômen. Puxou o ar com força, ficando ainda mais pálido.
— Não se agite. Se a ferida abrir, vai ter que levar pontos de novo. — Alícia segurou seus ombros inquietos, com voz severa. — Mas eu não quero que passe por uma injustiça dessas por minha causa.
Kylen não a havia impedido. Seria um sinal de que ele havia concordado com a troca proposta por Nelso?

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