Seus dentes batiam e tremiam enquanto ela tentava morder e partir o pão macio.
Ontem à noite, no primeiro momento em que viu Kylen, percebeu que ele não usava óculos. Teve vontade de perguntar várias vezes, mas não disse nada.
Então era verdade.
Anos atrás, após o acidente de carro, ele ficara cego. Ela cuidou dele, e todas as noites ia ao altar na Mansão Lourenço, ajoelhando-se e implorando aos céus que protegessem Kylen e lhe devolvessem a visão, sem ousar relaxar um único dia.
Talvez sua rara diligência tivesse comovido os céus. Kylen finalmente recuperou a visão, mas as sequelas o obrigaram a usar óculos.
Ela sabia que a ganância traz perdas, por isso não ousava ter esperanças vãs, mas o desejo profundo enterrado em seu coração era que ele se recuperasse completamente.
Agora, os olhos dele haviam realmente se recuperado.
Uma onda de alegria e amargura invadiu seu coração ao ver aquele desejo antigo finalmente realizado.
Que bom.
Ela virou o corpo de lado, dando as costas a Vinicius, e fingiu limpar o rosto com as costas da mão, enxugando as lágrimas desordenadamente até secá-las.
— Vocês viram o Hélder antes de virem me procurar? Como ele está?
— Ferido no abdômen por uma arma branca, mas nada grave. Com um tempo de repouso ficará bem. — Vinicius fingiu não notar os olhos avermelhados dela.
Ele desviou o olhar, viu o homem caminhando naquela direção e discretamente se afastou para o lado.
— Depois de comer, volte para o andar de cima e durma mais um pouco.
Um copo de leite morno foi colocado ao alcance da mão de Alícia.
Ao pé do ouvido, a voz do homem soava fria como sempre.
Alícia desviou o olhar daquela mão de ossos bem definidos que segurava o copo, enfiou pão na boca e, inconscientemente, resmungou:
— Aquele saco de dormir parecia um saco para cadáveres...
O olhar de Kylen parou, e suas sobrancelhas se franziram. Ela era realmente...
Sem perceber que havia dito algo tabu, Alícia olhou para a expressão gélida de Kylen e mudou de assunto:
— Quanto tempo a tempestade vai durar? Narciso Simões termina as filmagens hoje e volta, eu preciso ir ao aeroporto...
Kylen a interrompeu com um tom desagradável:
— Não tenho poder suficiente para fazer a tempestade obedecer às minhas ordens. Pergunte a ela você mesma.
Alícia entrou no quarto do segundo andar. Na noite anterior, assim que entrou, foi encurralada por Kylen num canto, que exigia beijos e contato; depois, as luzes foram apagadas e não se via mais nada.
Agora, com o dia clareando e a luz acesa, ela inconscientemente examinou o quarto.
Seu olhar foi atraído por uma mesa em frente à cama.
Debaixo do tampo da mesa havia duas gavetas.
Aquela casa claramente não era habitada há muito tempo. Será que havia algo deixado pelos antigos donos nas gavetas?
Naquele lugar sem sinal de celular, o tédio fazia brotar muitas ideias.
Alícia abriu uma das gavetas.
Havia apenas algumas bugigangas inúteis. Quando ela estava prestes a empurrar a gaveta de volta, percebeu que, sob os objetos, havia uma fotografia virada para baixo.
A curiosidade impeliu Alícia a virar a foto.
Na imagem havia um homem e uma mulher, parecia uma foto de documento para registro de casamento.
Alícia olhou para o Kylen da foto, com uma aparência um pouco mais jovem e crua do que agora, com o cabelo raspado bem curto. Sua mente ficou em branco.

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