Mas já não existia, neste mundo, nenhuma prova que pudesse inocentar a Família Serra.
Ele investigara por tantos anos, e todas as vezes, as evidências apontavam para a Família Serra.
Esta fora a última vez.
Os dados da caixa-preta explicavam tudo.
O jato particular em que seus pais viajavam sempre estivera sob a responsabilidade pessoal de Ismael Serra.
Ismael, movido por uma ambição desmedida, conspirou com forças da fronteira para matar seus pais. No fim, acabou sendo traído por essas mesmas forças, o que levou à falência da Família Serra; de certa forma, uma retribuição do destino.
Era também o único consolo que ele poderia oferecer à memória de seus pais.
Hélder, ainda trêmulo pelo susto, alcançou Alícia.
Ele jamais imaginara que Alícia pudesse correr tão rápido. Se Vinicius tivesse reagido um segundo mais tarde, o carro a teria atropelado!
O que, afinal, a deixara tão desesperada a ponto de não se importar com a própria vida?
O capô do carro parou a menos de um metro de Alícia.
No instante em que Vinicius freou bruscamente, foi como se uma rajada de vento cortante penetrasse o corpo dela.
Seu olhar atravessou o para-brisa, fixando-se no rosto que estava no banco de trás, aquele rosto com o qual sonhara incessantemente em sua juventude, mas que agora, ao vê-lo, lhe causava uma dor lancinante.
Kylen, eu vim buscar uma resposta.
A porta do carro se abriu. O pé de Kylen tocou o chão; a neve que caíra na beira da estrada durante o dia havia derretido, e o solo, ainda não totalmente seco, estava escuro e úmido.
Os olhos de Kylen, por trás das lentes, ocultavam camadas de sombras.
— Ficou louca?
— Meus pais morreram por culpa do meu pai?
Os dois falaram ao mesmo tempo.
A voz de Alícia soou instável, como um fio de fumaça disperso pelo vento, mas cada palavra penetrou nos ouvidos de Kylen.
Tão leve, mas como uma tempestade, fez o sangue de Kylen agitar-se como ondas do mar e, em seguida, congelar.
Hélder, que estava mais próximo de Alícia, ficou atônito por um momento, e depois olhou incrédulo para Kylen, cuja aura emanava um frio sombrio e opressivo.
A mão de Vinicius, que empurrava a porta do carro, parou no ar.
Como a senhora ficou sabendo?
Se havia alguém neste mundo que Kylen jamais desejaria que soubesse dessa verdade, essa pessoa era Alícia.
E a chave para modificar o código, apenas o próprio titular conhecia.
Os pais de Kylen morreram em um acidente aéreo.
A verdade estava ali, diante dela. Alícia segurou o celular com as duas mãos, e as lágrimas embaçaram sua visão.
Por que o papai fez isso?
Não é de admirar...
Coisas que ela nunca entendera antes, agora faziam todo o sentido.
Ela murmurou:
— Não é de admirar que você tenha dado a pulseira da minha mãe para outra pessoa... não é de admirar que você tenha destruído a cabana de madeira que meu pai construiu para mim... A Família Serra realmente tinha uma dívida de sangue com você. Eu realmente... Kylen, você deve me odiar até a morte.
Ela baixou a cabeça, parecendo falar consigo mesma e, ao mesmo tempo, questionar Kylen, como se tivesse perdido a alma.
Mas que direito ela tinha de questionar?
Ela vira no álbum de fotos guardado com carinho pela avó fotos de Kylen criança com seus pais. A família de três pessoas parecia tão acolhedora e feliz.
O pequeno Kylen no colo da mãe, ou sentado no colo do pai lendo um livro.

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