POV/ DIEGO
Eu conhecia minha irmã o suficiente para perceber que ela não estava exatamente no melhor momento da vida, mas seria absurdo colocar aquilo na conta de Pablo. Tínhamos o concurso, trabalho, hospital, Sky, Rocco, a gravidez de Sky e uma quantidade de problemas que parecia aumentar toda vez que alguém atendia o telefone.
Qualquer pessoa estaria estranha.
Então não perguntei.
Se Sakura quisesse conversar, conversaria.
Eu já tinha passado tempo demais da vida acompanhando cada passo dela por necessidade. Sabia nomes de médicos, horários de remédios, quando ela tinha comido, quando não tinha, quando estava fingindo que não sentia dor e quando dizia estar bem apenas para eu parar de perguntar.
Aquilo tinha sido necessário.
Agora não era mais.
Parte de vê-la saudável também significava aprender a sair do caminho.
Nathan parecia ter mais dificuldade com isso em alguns momentos.
Não que fosse novidade. Ele conhecia Sakura desde que ela tinha oito anos. Viu aquela menina crescer, entrou e saiu de hospital conosco e apareceu tantas vezes em nossa casa que deixou de ser visita havia muito tempo.
Nathan sempre tinha sido protetor com ela.
Ultimamente, porém, os dois estavam diferentes.
Eu não sabia explicar como.
Sakura parecia mais irritada quando Nathan estava perto. Às vezes prestava atenção demais nele; em outras, fazia um esforço quase infantil para fingir que não tinha percebido sua presença.
Nathan também estava estranho. Em alguns dias ficava protetor demais. Em outros parecia manter distância de propósito.
Eu percebia.
Só não fazia ideia do que significava.
Podia ser implicância.
Podia ser consequência de terem crescido.
Talvez Nathan ainda enxergasse parte daquela menina de oito anos que aparecia no meio das nossas partidas de videogame e precisasse entender, assim como eu, que Sakura não precisava mais de ninguém tomando conta dos passos dela.
Também podia não significar porra nenhuma.
Essa possibilidade era bastante razoável.
Eu não era especialista em sentimentos. Tinha levado anos para entender os meus. Seria muita pretensão imaginar que conseguiria decifrar os de Nathan e Sakura apenas porque os conhecia.
Além disso, nenhum dos dois nunca tinha falado comigo sobre aquilo.
Nathan me contava praticamente tudo que considerava importante. Eu conhecia a história da família dele. Sabia de Nash. Estive com ele depois da morte dos pais. Conhecia os períodos ruins, as recaídas, as mulheres, a bebida e coisas que provavelmente morreriam comigo porque tinham sido confiadas a mim.
Se houvesse alguma coisa que Nathan achasse que eu precisava saber, ele falaria.
Sakura também sabia abrir a boca muito bem quando queria.
Portanto, não era problema meu.
Ainda assim, havia uma verdade que eu conhecia independentemente do que existisse ou não entre os dois.
Eu amava Nathan como um irmão. Confiava nele mais do que confiava em quase qualquer pessoa. Colocaria minha vida nas mãos dele sem pensar duas vezes.
Minha irmã era diferente.
Para Sakura, eu queria paz. E Nathan nunca tinha conhecido paz tempo suficiente para oferecê-la a alguém.
Eu conhecia o homem que existia por trás das piadas.
Tinha visto Nathan depois da morte dos pais. Vi bebida, mulheres, drogas e dias em que ele fazia qualquer coisa para não ficar sozinho com a própria cabeça. Vi o pior período da vida dele e estive ali quando chegou tão perto do limite que eu ainda evitava pensar no que teria acontecido se eu tivesse chegado alguns minutos mais tarde.
Também vi Nathan melhorar.
Vi trabalhar, estudar e reconstruir partes da própria vida. Vi se tornar um profissional competente e o tipo de amigo que largava tudo quando alguém importante precisava dele.
Nathan não era uma pessoa ruim.
Era uma pessoa complicada.
E ainda tinha uma capacidade impressionante de fugir de tudo que acontecia dentro da própria cabeça.
Eu já tinha sugerido terapia mais vezes do que conseguia contar. Às vezes ele aceitava ouvir. Outras mudava de assunto. Em algumas concordava comigo e depois fazia exatamente o que queria.

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