POV: NATHAN
Fiquei encostado no carro, com os braços cruzados, vendo Sakura beijar outro homem.
Pablo segurava a cintura dela. Sakura estava com uma das mãos no pescoço dele e fazia questão de prolongar aquele beijo mais do que precisava. Eu sabia que era de propósito. Ela tinha olhado para mim antes de se aproximar dele, como se quisesse ter certeza de que eu estava vendo.
Mesmo assim, saber não ajudava em porra nenhuma.
Apertei a mandíbula e permaneci onde estava. Eu não tinha direito de fazer nada. Talvez aquela fosse a pior parte.
Passei anos dizendo a mim mesmo que Sakura precisava encontrar alguém bom. Um homem que não carregasse os mesmos problemas que eu, que não bebesse demais quando a cabeça ficava ruim, que não tivesse passado anos pulando de uma cama para outra, que não conhecesse clubes como o Ambrosia melhor do que conhecia algumas igrejas de Porto Alegre. Um homem que Diego pudesse olhar e pensar que a irmã estava segura.
Pablo parecia exatamente esse homem.
Então por que eu queria arrancar a mão dele da cintura dela?
Sakura se afastou do beijo e entrou no carro. Não olhou para mim outra vez. Acompanhei as lanternas vermelhas até desaparecerem no fim da rua e passei a mão pelo rosto, tentando controlar a irritação que não tinha direito de sentir.
Às vezes eu tentava descobrir quando aquilo tinha começado.
Nunca conseguia.
Em que momento eu tinha parado de querer proteger Sakura para começar a querê-la para mim?
A resposta mais fácil seria dizer que aconteceu quando ela cresceu. Quando deixou de ser aquela menina magrinha que corria atrás de Diego pela casa e se tornou uma mulher bonita pra caralho.
Mas seria mentira.
Eu já amava Sakura muito antes de desejar o corpo dela.
Só não amava daquele jeito.
Quando a conheci, eu tinha catorze anos e ela, oito. Eu tinha acabado de chegar a Porto Alegre e estava puto com o mundo inteiro.
Até poucos meses antes, minha vida ficava no Rio de Janeiro. Minha escola, minha casa, meus amigos e uma garotinha de sete anos chamada Natasha Garcia, embora eu só tenha descoberto depois que ela também tinha direito ao sobrenome Beaumont.
Nash era filha de Luciana, uma das mulheres que trabalhavam na nossa casa. Tinha cachos loiros, olhos verdes enormes e aparecia algumas vezes acompanhando a mãe. Eu gostava quando ela estava por perto. Nash falava demais, mexia nas minhas coisas e ria quando eu fingia que ia expulsá-la do quarto. Eu tinha catorze anos, ela sete, e nunca parei para pensar por que meu pai permitia que a filha de uma funcionária circulasse pela casa com tanta liberdade.
Até encontrá-lo beijando Luciana.
Não contei para minha mãe. Não por lealdade ao meu pai. Eu simplesmente não sabia o que fazer com aquilo. Durante algum tempo, fingi que não tinha visto.
Rosana descobriu sozinha.
Depois descobrimos o resto.
Nash era filha do meu pai.
Minha irmã.
Minha mãe já vinha mal havia algum tempo, mas aquela descoberta terminou de derrubá-la. Vieram as discussões, os remédios, as ameaças de divórcio, os dias em que ela quase não saía do quarto e as promessas de Odair de que tudo mudaria. Meu pai encontrou uma solução que servia perfeitamente para ele: tirar a família do Rio de Janeiro.
Nós iríamos para Porto Alegre.
Luciana e Nash ficariam.
Eu ainda me lembrava de perguntar o que aconteceria com elas. A resposta do meu pai me ensinou mais sobre ele do que qualquer coisa que tivesse acontecido antes. Para Odair, pessoas podiam ser abandonadas quando começavam a ameaçar a vida que ele queria preservar.
Ele tinha escolhido minha mãe.
Ou era assim que gostava de contar.


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