POV: SKY BITTENCOURT
Deslizei o dedo pela tela e atendi no viva-voz:
— Oi...
— Bittencourt, já estou estacionado na calçada te esperando — a voz grave dele soou limpa, com aquele tom pausado de quem manda em metade da cidade. — Quer ajuda com as malas?
— Não precisa subir, não — respondi, rindo baixo enquanto caminhava até o armário para escolher uma roupa. — Mas você vai ter que esperar uns dez minutinhos, porque tinha um homem aqui fazendo manutenção e eu ainda preciso me vestir.
Silêncio.
Continuei andando em direção aos cabides.
Dois segundos. Três. Parei e olhei para o visor. A ligação continuava ativa.
— Rocco?
— Volta.
— O quê?
— Volta a frase.
Franzi a testa.
— Que frase?
— A frase inteira.
— Tinha um homem aqui fazendo manutenção e eu ainda preciso me vestir.
Outro silêncio. Dessa vez, mais pesado.
— Sky.
— Oi?
— Por que você ainda precisa se vestir?
Olhei para baixo.
— Porque eu não estou vestida.
— Eu entendi essa parte, obrigado. A pergunta é: por que havia um homem dentro da sua casa enquanto você não estava vestida?
Mordi o lábio inferior para segurar a risada.
— Ciumento...
— Não muda de assunto.
— Eu nem comecei outro assunto.
— Quem é o sujeito?
— Um técnico.
— Técnico de quê?
— Do gás.
— Nome.
— Não sei.
— Empresa.
— Também não sei.
— Você colocou dentro da sua casa um homem cujo nome você não sabe e cuja empresa você também não sabe?
Pisquei, sem argumentos para rebater.
— Ele estava uniformizado.
— Ah, excelente. Resolvido. Criminosos são biologicamente incapazes de usar macacão de brim.
— Rocco!
— Sky, você estava pelada?
— Claro que não!
Ele soltou o ar com força do outro lado da linha.
— Menos mal.
— Eu estava com um robe.
Silêncio.
— Rocco?
Nada.
— Amor?
— Estou processando.
A risada escapou da minha garganta.
— Processando o quê?
Desliguei e joguei o celular na cama, balançando a cabeça.
Vesti uma lingerie confortável e coloquei um vestido leve de alcinhas. Calcei uma sapatilha simples, fechei a mala de mão com um puxão rápido e joguei a alça no ombro.
Passei na cozinha apenas para conferir a trava manual do registro de gás. Estava fechado, exatamente como o técnico tinha orientado.
Apaguei as luzes, saí para o corredor externo e dei duas voltas na fechadura.
Desci os degraus de concreto da escadaria. A Mercedes preta do Rocco estava parada rente à calçada, reluzindo sob a luz cinzenta da tarde de Porto Alegre.
Pisei no último degrau.
Uma queimação esquisita apertou o fundo do meu estômago de repente, sem aviso e sem motivo físico. Era aquela mesma sensação amarga que sempre me visitava antes de alguma coisa desandar na minha vida: o hábito antigo do meu corpo de achar que, sempre que eu estava feliz e em paz demais, o chão ia ceder debaixo dos meus pés.
Parei por um segundo, engoli a saliva seca e apertei a alça da mala.
Olhei para o carro.
O vidro do motorista estava completamente aberto. Rocco estava lá dentro, com os braços cruzados contra o peito largo, os olhos verdes cravados em mim, as sobrancelhas franzidas e um bico emburrado de quem tinha ensaiado um sermão inteiro durante a espera.
A visão daquela cara amarrada desarmou o aperto no meu peito no mesmo segundo.
Soltei o ar devagar, dei um meio-sorriso de provocação e caminhei até a porta do carro.
Abri a porta do carona, joguei minha mala de mão no espaço atrás dos bancos e me acomodei no couro perfumado. Virei o rosto para ele, apoiei o queixo na palma da mão e encarei aquela carranca armada.
— Vejo que você ainda está com essa cara. Ficou bravo?
Rocco nem piscou. Manteve os olhos cravados no para-brisa, encarando a rua vazia como se o asfalto tivesse acabado de insultar a honra da família dele.
— Não estou bravo.
— Não parece. Parece que chupou três limões galegos com casca e semente.
— Eu tenho uma expressão facial perfeitamente neutra, Bittencourt.
— Aham, sei. Uma neutralidade que assusta os pedestres na calçada — soltei, segurando a risada. — Mas que pena. Se você não está bravo, não precisa de beijo de reconciliação. Eu ia amaciar o seu ego, mas, já que o senhor está perfeitamente em paz, eu economizo a minha saliva.
Ele virou o pescoço na minha direção com tanta rapidez que quase deu para ouvir as vértebras estalando.
— Quem disse que eu não quero beijo?
— A sua cara.
— Minha cara não tem boca própria para dar opinião.
— Mas o bico que você está fazendo fala por si só.
Rocco soltou o ar com força pelo nariz, perdeu a pose inteira de homem inabalável e desmanchou a cara fechada. Descruzou os braços, esticou as mãos compridas e segurou meu rosto, afundando os dedos nas minhas bochechas de um jeito que espremeu meus lábios em um biquinho forçado.
— Tá bom, droga. Sua chantagista — ele resmungou contra a minha boca.

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