POV: SKY
— Eu sou ela!
— Não parece.
— COMO EU NÃO PAREÇO COMIGO MESMA?!
Ele ignorou completamente a minha revolta e ergueu a mão aberta na minha direção, com a palma esticada feito um guarda de trânsito em dia de blitz.
— Um metro.
Dei meio passo para trás, chocada.
— Rocco, eu tô a meio metro de você!
— Exatamente.
— Exatamente o quê?!
— Um metro de distância.
— Isso foi meio metro!
Ele me olhou com uma expressão de profunda decepção, como se eu fosse a pessoa mais incompetente do mundo em matemática básica.
— Então anda mais para trás.
— Rocco, pelo amor de Deus!
— A minha mulher mandou.
— EU SOU A SUA MULHER!
— Você continua dizendo isso.
— Porque é verdade!
— É uma informação que você repete bastante — ele rebateu, balançando a cabeça com desconfiança.
Passei as duas mãos no cabelo e comecei a andar de um lado para o outro na sala, sentindo a minha pressão subir.
— Calma, Sky. Respira... Respira.
— Cadê a minha mulher? — ele perguntou, esticando o pescoço e olhando para os cantos do teto como se ela fosse brotar do lustre. — Ela foi comprar alguma coisa?
Olhei para ele. Olhei para o teto. Olhei para ele novamente.
Respirar é importante, tentei me lembrar. Não cometer um homicídio contra o próprio noivo bêbado também é fundamental.
— Ele tá bêbado. Bêbados precisam de hidratação.
Parei no meio do caminho e apontei o dedo para ele.
— E eu preciso urgentemente de um calmante.
O Rocco continuou sentado no sofá, com a coluna reta e a expressão solene de quem estava cumprindo uma missão militar ultra-secreta de fidelidade matrimonial.
Respirei fundo.
— Certo. Um metro.
Estiquei os braços para medir o espaço no ar.
— Pronto. Feliz?
Ele assentiu lentamente, muito compenetrado.
— Muito.
— Ótimo.
— Minha mulher ficaria orgulhosa da minha conduta moral.
Fechei os olhos, apertando a ponta do nariz.
— Eu vou contar até dez.
Abri um dedo.
— Um.
Ele abriu um sorriso preguiçoso.
— Dois.
— Minha Sky... — ele murmurou baixinho.
Parei. Olhei para ele na hora.
— O quê?
Ele fechou os olhos devagar.
— Nada.
— Você acabou de me chamar de sua Sky!
— Não lembro.
— Claro que não lembra. Sua memória dura três segundos.
E ali estava eu: a mulher que já tinha sido carregada por ele bêbada inúmeras vezes na vida, agora tentando convencer o próprio namorado de que eu era eu mesma. A vida realmente tinha um senso de humor muito distorcido.
Fui até a cozinha, enchi um copo com água gelada e voltei para a sala. Parei exatamente a um metro de distância — porque aparentemente aquela era a distância oficial entre mim e o meu noivo naquela noite — e estendi o braço com o copo na direção dele.
— Toma. Bebe isso aqui.
O Rocco pegou o copo com a pontinha dos dedos, desconfiado. Ergueu o vidro contra a luz do lustre e ficou encarando a água como se eu tivesse acabado de entregar veneno puro.
— O que é isso?
— Água.
— Tem álcool?
— Não.
Ele estreitou os olhos.
— Tem certeza?
— Rocco, é água da geladeira!
Ele levou o copo até o nariz e cheirou a borda demoradamente por dez segundos inteiros.
— Quer que eu mande para um laboratório fazer perícia na água?! — perdi a paciência.
Ele deu um golinho minúsculo. Parou. Estalou a língua duas vezes. Fez uma careta horrível.
— Sem graça.
Fiquei encarando o homem.
— É ÁGUA, ROCCO!
— Eu sei.
— Então por que tá fazendo essa cara de enterro?
— Porque não tem gosto de nada.
— Água não precisa ter gosto! Água precisa hidratar os seus neurônios queimados de uísque!
Ele me encarou em silêncio, como se estivesse avaliando a profundidade filosófica daquela bronca.
— Uma tarefa simples.
Ele respirou fundo, apoiou as duas mãos nas coxas e fez uma força gigantesca para conseguir ficar em pé.
Ficou. Estufou o peito largo. Endireitou os ombros de lutador. Olhou para mim com uma pose vitoriosa e arrogante.
— Viu só?
— Tô vendo.
— Eu disse que estava ótimo.
— Agora anda até o quarto.
— Fácil demais.
Ele deu o primeiro passo. Depois o segundo. No terceiro passo, perdeu completamente as coordenadas espaciais. Deu uma guinada brusca para a direita e bateu a canela com força no braço de madeira do sofá.
— Ai! Porra!
Recuou mancando, esfregando a perna com a mão e encarando o estofado com ódio mortal.
O sofá, imóvel, continuou no mesmo lugar.
— O sofá mudou de lugar.
Olhei para o móvel. Olhei para a cara dele.
— Não mudou, Rocco.
— Mudou sim.
— O sofá tá aí há anos!
— Não estava nessa posição.
— Amor...
— Eu vi ele se mover para a esquerda para me atingir.
— Claro que viu. O sofá tem vida própria.
Ele apontou o dedo indicador para a almofada com autoridade.
— Ele armou uma emboscada para mim.
— O móvel armou uma emboscada?
— Sim.
— E você perdeu a briga para um sofá de três lugares.
Ele me lançou um olhar mortal e ofendido.
— Não estou gostando do rumo sarcástico dessa conversa.
Percebendo que ele ia tombar de novo, dei dois passos rápidos para a frente e passei os meus dois braços ao redor da cintura dele para segurar o equilíbrio.
— Vem, grandão. Eu te ajudo.
Foi o pior erro da minha noite.
No segundo em que as minhas mãos encostaram no tronco dele, o Rocco arregalou os olhos em puro desespero, como se tivesse sido atacado por um animal selvagem.
— CONTATO FÍSICO NÃO AUTORIZADO! — ele berrou, entrando em pânico. — VIOLAÇÃO DE PERÍMETRO!
— Rocco, sou eu!
— SOCORRO! — ele tentou se desvencilhar de mim com um solavanco desajeitado, jogando o corpo para trás para defender a honra. — A MINHA MULHER PROIBIU! ELA DISSE QUE NENHUMA MULHER PODE ME TOCAR! ME LARGA, SUA TENTADORA!
— ROCCO, PARA DE SE MEXER!

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Virgem Traída Contratou um Gigolô e Ele era um Bilionário