"Lorena"
O trajeto até a escola da Alice tinha se resumido na empolgação dela contando para o motorista sobre os meus "poderes mágicos". O motorista a tratava docemente e sorria dos seus comentários infantis. Quando nos aproximamos da escola e ela parou de falar por um momento para tomar fôlego, eu aproveitei para alertá-la.
- Alice, nós precisamos fazer um pacto. - Ela me olhou desconfiada. - É que se você ficar contandfo para todo mundo sobre os meus poderes mágicos, eles podem parar de funcionar. Mágica precisa de mistério para acontecer. - Eu falei e ela me deu um sorrisinho travesso.
- Lolô, é para manter segredo sobre os beijos de bom dia que deixam o bicho-papão bonzinho, não é? - Ela perguntou direto e eu esmoreci no banco do carro.
- Ai, querida... por favor? Você pode fazer isso por mim? - Eu pedi e ela riu.
- Tá bom, Lolô, eu guardo o seu segredo. - Ela confirmou e eu a abracei e beijei, grata por ela ter concordado tão fácil. - Mas eu vou querer mais daqueles chocolates que você leva pra mim escondido do papai.
Eu gelei com o olhar do motorista para mim. Eu levava bombons para ela sempre que voltava da minha folga e nós comíamos juntas no meu quarto, porque o Érick não gostava que ela comesse doces. Bem, pelo menos foi o que a Adelaide me disse no primeiro dia. Mas ela adorava chocolates e eu não conseguia dizer não para ela. Quem negava um doce a uma criança? Era impossível.
Eu olhei para o motorista, ele era como os olhos e ouvidos do Érick e contaria ao chefe que eu contrabandeava chocolates para a filha dele. Meu olhar era de quem implorava para que ele não dizer nada, mas ele apenas riu. Isso não era bom, minha lista de problemas só aumentava.
Eu ainda nem sabia o que tinha acontecido na boate, embora em confiasse que o Barão não fosse abrir a boca. E ainda tinha que lidar com o ciúme descarado do Érick porque eu apliquei maquiagem no machucado do amigo dele. Ele mal conseguiu esconder a sua insatisfação enquanto eu tocava o rosto do Andrey para depositar as camadas de corretivo. Eu sabia que ele ficaria todo nervosinho, mas eu não podia deixar a Alice tão preocupada.
Assim que o carro parou, eu saí com a Alice e a levei até o portão, me abaixei para lhe dar um beijo e ela entrou quase correndo. Eu respirei fundo, pronta para voltar para a segurança da mansão. Mas, antes que eu pudesse alcançar o carro, uma voz me chamou.
- Lorena? - Era o Renato, o professor de educação física da Alice. Ele nunca ia me deixar em paz? Ele se aproximou com um sorriso amigável demais. - Que bom que hoje você está sozinha. O Sr. Albelini te mantem como uma prisioneira. Eu gostaria de conversar um pouco com você, talvez possamos tomar um café. Eu tenho o primeiro horário livre... - Ele chegou perto demais e eu dei um passo para trás.
- O Sr. Albelini não me mantem como prisioneira, professor. Acho que o senhor está bastante equivocado. Quanto ao café, eu já recusei, por favor, não insista.
Eu sorri educadamente, mas senti o motorista de Érick se empertigar próximo ao carro um pouco mais adiante.
- Ora, Lorena, é só um café. Vinte minutos do seu tempo, apenas isso. - Ele deu mais um passo à frente, tocando levemente meu braço. Foi um gesto breve, mas o suficiente para me deixar desconfortável. A insistência dele era estranha, peincipalmente depois de ter sido despachado pelo próprio Érick. - Vamos. Você não vai se arrepender.
- Professor... - Eu puxei o meu braço do leve aperto dele. - Eu sou a babá de uma das suas alunas, acho melhor que o nosso relacionamento se mantenha estritamente profissional.

VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite