"Lorena"
Eu sentia como se estivesse caminhando sobre nuvens, mas nuvens carregadas de eletricidade. Depois do flagra que a Alice me deu quando eu estava saindo do quarto do Érick e da gracinha dele na porta do quarto, eu corri para o meu quarto, tomei um banho rápido e me arrumei em tempo recorde. Eu estava de novo vestida como a babá, mas a sensação da pele do Érick contra a minha ainda era um rastro quente, tão quente que quase me fazia pensar que todos pudessem ver os beijos dele desenhados na minha pele.
Sentada à mesa do café, eu tentei me concentrar na minha torrada, mas a lembrança da noite passada me fazia suspirar e o peso do olhar de Érick era quase como um toque físico. Ele estava relaxado, até demais para aquele homem sempre tão rígido, era a personificação da satisfação, servindo-se de café com uma lentidão que parecia feita apenas para me dar tempo de notar como ele estava bonito naquela manhã, em seu perfeito terno sob medida e exibindo aquela gravata champanhe como se fosse um lembrete da minha lingerie. Não era possível que ele tivesse uma gravata para cada cor de lingerie que eu usasse. O pensamento me fez sorrir sem perceber.
- A Lolô está rindo sozinha, papai! Acho que é porque o bicho-papão está calminho. - A Alice anunciou, radiante, antes de levar uma colher do iogurte com morangos à boca.
- É verdade, pequena. - O Érick deu um gole no café, os olhos azuis fixos em mim por cima da borda da xícara. - Eu disse que hoje ia ser um dia especial. Estão todos felizes! Você concorda, Lolô?
Eu senti o meu rosto esquentar. Eu sabia exatamente por que ele tinha acordado bem, e o brilho divertido no olhar dele dizia que ele não me deixaria esquecer um segundo sequer da nossa noite no escritório.
- Que bom, Sr... Érick. - Eu me corrigi rápido, vendo que ele já estreitava os olhos para mim. - Fico feliz que a paz esteja reinando.
E foi exatamente nesse momento, enquanto o Érick e eu estávamos nos encarando fixamente, que a Adelaide entrou na sala de jantar trazendo uma nova jarra de suco. O rosto dela era uma máscara rígida, os lábios apertados em uma linha tão fina que quase desapareciam, o mau humor de sempre estampado ali. O contraste entre a nossa manhã de felicidade e a frieza hostil da governanta era quase uma tragédia cômica.
- Ih, papai, acho que você se enganou. Não estão todos felizes. A Sra. Adelaide não está feliz. Se bem que a Sra. Adelaide parece que nunca está feliz. Está sempre com cara de brava. Por que a senhora nunca está feliz, Sra. Adelaide? - A Alice perguntou, tombando a cabeça para o lado com genuína preocupação.
- Ora, Alice, eu apenas não sou boba e fico rindo sem motivo. - A Adelaide respondeu com a voz azeda.
- Rir não deixa ninguém bobo, Sra. Adelaide. Rir deixa a gente feliz. Não é, papai?
- Acho que você tem razão, pequena, mas algumas pessoas sorriem menos. - O Érick respondeu.
- Exatamente. O seu pai também não fica rindo por aí sem motivos. - A governanta emendou.
- Mas o papai era bravo, agora ele está calminho. A Lolô deixou ele calminho.
A Alice se ajoelhou sobre a cadeira e se curvou para o outro lado da mesa onde a Adelaide estava de pé e fez um sinal, a chamando com a mão. Só quando a Adelaide se curvou um pouco em sua direção foi que ela colocou a mãozinha na boca como se fosse contar algo só para a Adelaide e falou baixinho:
- Você não percebeu, Sra. Adelaide? O bicho-papão nem grita mais. E ele não mordeu a Lolô.
A Adelaide bufou e fechou ainda mais o semblante, franzindo as sobrancelhas nitidamente irritada.
- Vamos ver quanto tempo dura, não é, Alice. - A Adelaide respondeu me encarando, seu olhar cortante dizendo que eu não duraria muito e eu estremeci. A Alice a olhava com clara preocupação.



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