"Lorena"
O jantar foi uma tortura de subtextos. O Érick teve a brilhante idéia de trocar os lugares novamente e a Alice achou tudo uma grande diversão. Desta vez, ele me inverteu de posição com a Alice, me mantendo diretamente ao seu lado. O Julian e o Andrey, sentados à minha frente, logo perceberam a tensão possessiva do anfitrião e não perdiam uma chance de provocar.
- Interessante essa mudança de lugares à mesa, não é, Adelaide? - O Julian perguntou, fazendo a governanta quase explodir de raiva.
- Não acho interessante tumultuar o bom andamento da casa, Sr. Beaumont. - A Adelaide respondeu azeda.
- Mas o papai gosta! - A Alice rebateu imediatamente e eu congelei, eu não precisava da minha menina dando informações por aí. - Hoje no almoço ele sentou bem aqui nessa cadeira, do lado da Lolô.
Meu Deus, eu estava prevendo um desastre!
- É mesmo, Lili? - O Julian olhou para o Érick com o sorriso de quem não perdia a oportunidade.
- Foi mesmo! Sabia, Juju, que o papai e a Lolô agora são amigos de abraço?! - A Alice disse, entre uma garfada e outra. - O papai disse que é para ela ter o cheiro dele e o bicho-papão não morder ela. Mesmo ele não resistindo e mordendo de vez em quando.
O Julian engasgou com o vinho, rindo abertamente. Eu queria me enfiar embaixo da mesa.
- Alice, é melhor prestar atenção aos seus legumes, tem que comer todos. - Eu tentei desviar o foco da conversa e fazer a Alice ser menos falante, mas o estrago já estava feito.
- Você sabe que eu como todos, Lolô. - Ela me encarou com aquele sorrisinho que me desmanchava.
- Amigos de abraço, é? Albelini, você sempre foi um mestre da estratégia, mas essa de "marcar com o cheiro" é nova até para você. - O Julian comentou, enquanto o Andrey se acabava de rir ao seu lado.
- Concentre-se nos seus legumes, Julian! - O Érick rebateu, mas sua mão, por baixo da toalha de mesa, encontrou o meu joelho, tocando a minha pele com a mesma audácia demais cedo, e me fez quase derrubar a taça.
- Eu não sabia que o bicho-papão tinha ficado tão... afetuoso. - O Andrey não perdeu a oportunidade de provocar o amigo. - Eu também posso ganhar um abraço de amigo, Lorena?
Eu senti o meu rosto esquentar instantaneamente. O Érick não se abalou. Ele levou a taça aos lábios, fixando o olhar nos amigos com uma calma letal.
- Tente e você vai descobrir como é o meu aperto de mão quando estou de mau humor, Andrey. - O Érick respondeu, o tom de aviso fazendo o amigo levantar as mãos em sinal de rendição, rindo.
- A Lorena traz o melhor de todos nesta casa. Até do bicho-papão. - Ele respondeu. - Algo que você, com sua agenda lotada de conquistas baratas, dificilmente entenderia, Andrey.
O Andrey soltou uma gargalhada, mas seus olhos continuavam analíticos, alternando entre o Érick e eu.


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