"Lorena"
Chegamos à mansão e o clima era de uma guerra silenciosa. O Érick desceu do carro com a autoridade de quem esperava uma rendição imediata, mas eu apenas lhe lancei um sorriso enigmático enquanto pegava a mão de Alice. Por um segundo eu vi a confusão passando em seu rosto e comemorei por dentro, estava dando certo e até a noite ele esqueceria qualquer coisa que quisesse perguntar.
Mas ao entrar na mansão, o ar mudou. A Adelaide estava parada no pé da escada, com a postura arrogante de sempre e um olhar que me desnudava. No olhar dela havia desprezo e uma condenação silenciosa, como se ela soubesse que eu estava escondendo algo que poderia destruir tudo. Desviei o olhar e subi as escadas depressa levando a Alice pela mão, o coração martelando contra as costelas. Eu odiava ser observada pela Adelaide.
Quando a Alice e eu nos sentamos à mesa para o almoço, o Érick já estava lá, sentado na cabeceira, a imagem perfeita do patriarca imperturbável. Ele já havia trocado o paletó por uma camisa de linho azul, com os primeiros botões abertos, o que significava que ele não voltaria para o escritório.
- Lolô, por que você está tão quietinha? - A Alice perguntou, balançando as perninhas na cadeira ao meu lado. - Desde a escola, você quase não falou. - Ela abaixou a voz e me encarou. - O papai está irritado com você de novo por causa daquele professor chato? O bicho papão gritou com você?
- Ainda não, Alice, mas o bicho papão está pensando seriamente em morder a sua babá. - O Érick respondeu por mim, seu olhar intenso e cheio de promessas queimando a minha pele.
- Papai, não assusta a Lolô! - A Alice falou brava com o pai.
- Alice, o seu pai não me assusta. Ele só tem um jeito intenso de resolver as coisas. - Eu respondi evitando encarar o Érick.
- Intenso é um elogio, Lorena. - O Érick comentou, a voz aveludada.
Eu senti o meu rosto esquentar instantaneamente. Antes que eu pudesse falar qualquer coisa mais, eu ouvi o arrastar pesado da cadeira de madeira maciça. O Érick se levantou da cabeceira, pegou seu prato, seus talheres e sua taça. Em um movimento fluido e autoritário, ele contornou a mesa e puxou a cadeira vazia exatamente ao meu lado, ficando de frente para Alice e colado a mim.
- Eu não estou irritado com a Lolô, pequena. - A voz dele saiu grave, vibrando tão perto do meu ouvido que senti um arrepio percorrer minha espinha, enquanto eu sentia o calor da mão dele, que agora subia discretamente pela minha panturrilha sob a toalha de mesa longa. - Eu apenas cuido do que é meu. E eu detesto invasores. Não quero que aquele professor tente nos roubar a Lolô. Ou você quer isso?
- Nao, papai, de jeito nenhum! Eu já avisei para o professor Renato que se ele continuar querendo tomar café com a Lolô eu paro de jogar futebol. - A Alice respondeu toda convicta.
Mas eu não consegui sequer rir da Alice, eu mantive o olhar fixo no prato, tentando não demonstrar meu nervosismo, enquanto a mão do Érick continuava sua escalada perigosa pela minha perna. Ele não era um jogador principiante.
A Adelaide entrou na sala com a travessa de prata, parando abruptamente ao ver o patrão fora de seu lugar habitual. O rosto dela se transformou em uma máscara de choque e fúria contida. O protocolo da casa, que ela protegia como um cão de guarda, acabara de ser estraçalhado.
- Sr. Albelini... o seu lugar... - Ela começou, a voz trêmula de indignação e confusão.


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