"Heloísa"
Meia hora depois a minha sala de estar estava prestes a se transformar no meu comitê de campanha onde eu começaria a desmontar a mentira que envenenou o meu filho e tirou dele a felicidade.
Eu mal tinha entrado em casa quando o Julian, pontualmente, apareceu em minha frente. Ele tentava manter a aparência de ter o controle de tudo como sempre, o terno perfeitamente alinhado, o cabelo bem penteado e os sapatos engraxados brilhando, mas as olheiras profundas e a rigidez no maxilar entregavam o tamanho do estrago. Ele estava exausto. O que aconteceu não atingiu apenas o meu filho e a Lorena, o dano era bem maior.
- D. Heloísa, que bom que a senhora decidiu voltar mais cedo. Só a senhora pode fazer o Érick ouvir. - O Julian me cumprimentou com um beijo na face.
- Temo que nem eu consiga essa proeza desta vez, Julian. Lembra quando ele decidiu se casar? Não houve o que eu pudesse fazerm ele bateu o pé e foi em frente. Nunca amou aquela moça. - Eu lamentei. - Seguiu o conselho estúpido da avó, que o fez acreditar que quem não era da elite só se aproximava dele por interesse. - Eu bufei.
- E ele voltou a acreditar nisso e agora com muito mais motivos. Pelo menos é o que ele pensa. - O Julian respondeu.
Antes que ele pudesse se sentar, a porta se abriu outra vez e a Dalva entrou. Ela usava um conjunto de calça e casado simples e funcional, a postura firme e o olhar acolhedor de sempre, mas eu via a preocupação nos olhos dela.
O Julian travou por um segundo, os olhos estreitando-se ao reconhecer a mulher que por quem a Lorena tinha tanto apreço. Ele olhou para mim, procurando uma resposta no meu silêncio.
Do outro lado, a Dalva mantinha a sua postura firme e maternal, a mesma que eu já conhecia há algum tempo, desde que os nossos caminhos se cruzaram.
- Dalvinha? - O Julian olhou para ela em busca de resposta. E então voltou a me encarar. - D. Heloísa, a senhora pretende me contar alguma coisa, ou vamos continuar como estamos até agora, a senhora me convencendo a mentir para o Érick sem me explicar direito como sabe das coisas?
- Julian, é uma longa história. Mas eu conheci a Dalva do mesmo jeito que conheci a Marcelina. Eu sei que isso tudo está afetando a sua amizade com o meu filho, mas podemos conversar depois. Eu deixei a Alice dormindo e quero estar de volta o quanto antes. Vou ficar uma temporada naquela casa.
- Isso é o melhor. - O Julian concordou e com um suspiro não insistiu. - Eu gostaria de saber os detalhes dessa longa história, D. Heloísa. Quando for possível, podemos marcar um almoço.
- Em breve, Julian. - Eu concordei.
O Julian me contou tudo. Sem meias verdades, desde o momento em que a Lorena se deu conta de qua a Adelaide não estava neutralizada, até como ele rastreou o detetive do Simão e comprou as informações dele.
- Mas o que eu não entendi, Julian, é como a Adelaide conseguiu as provas contra a Lorena, se você conseguiu interceptar o detetive. - Eu comentei.
- Isso eu ainda estou investigando. O problema é o que celular com o qual ela falou era pré-pago registrado em um CPF de um laranja. O investigador do Simão garantiu que informou para o Simão apenas o que eu mandei e ele não tinha fotos nem documentos, eu peguei tudo, um hacker da minha confiança limpou os computadores e os dados da nuvem e eu fiquei de olho nele. Para falar a verdade, D. Heloísa, ele nem tinha muita coisa, era uma ou duas fotos da Scarlat na boate servindo mesas e o que a tal Medusa contou. Até porque nós sabemos que o Barão não registra as funcionárias e usa nas próprias anotações de controle da boate apenas o psedônimo delas.
- É, isso é muito estranho, mas o Érick não estaria tão decidido assim por nada, Julian, tem alguma coisa aí. - Eu pensei, meu filho estava seguro demais de que sabia a verdade.
- É, tem. Até porque o onvestigador do Simão nunca falou com a Adelaide. Ele me garantiu isso e eu verifiquei todas as linhas dele. - O Julian esfregou os olhos. - Eu tenho a péssima sensação de que só a Adelaide pode nos dar a informação que queremos.
- Você não viu o que ela entregou ao Érick? - Eu quis saber.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite