"Lorena"
Nas duas semanas seguintes a Marcelina e eu derrubamos um por um daqueles Conselheiros, mas eu não soube o que era dormir uma noite inteira. A frase do Mendes ecoava na minha mente toda vez que eu fechava os olhos: “O Simão está atrás do seu segredo, babá.”
Eu olhava para o Érick deitado ao meu lado na escuridão do quarto, com o peito subindo e descendo, os braços possessivos ao redor da minha cintura, e meu coração disparava. Se o Simão encontrasse uma única pista da Scarlat, eu estaria perdida.
Eu já não aguentava mais o peso daquele segredo e não via a hora de me sentar em frente ao Érick e contar tudo para ele, com calma, pedindo desculpa. Eu tinha certeza que ele entenderia, mas se o Simão chegasse antes de mim, aquilo ficaria muito feio e aó talvez o Érick nunca me perdoasse. Por isso, a Marcelina e eu não paramos.
Com o apoio da Marcelina, do Alberto e do Julian, que parecia cada vez mais obcecado em "fiscalizar" os passos da minha melhor amiga, nós fomos atrás dos outros conselheiros que apoiavam o plano de deposição do Érick. Nós tínhamos tudo pronto para que eles se entregassem. Tínhamos os podres, as fotos, as auditorias paralelas. Estávamos prontas para repetir o massacre. Mas nós não contávamos com um imprevisto.
Dos conselheiros restantes, quase todos aceitaram a nossa proposta, a venda das ações em troca de esquecermos os seus segredinhos podres. Mas dois deles nos pegaram desprevenidas. Quando os encurralamos, a resposta deles nos deixou sem chão. Eles já tinham vendido tudo semanas antes.
Ambos disseram ter sido procurados por um escritório de advocacia internacional com uma oferta irrecusável, um deles confessou, trêmulo, enquanto Marcelina exibia os podres dele. Que havia assinado a venda por meio de um procurador anônimo e que a notícia só seria anunciada oficialmente após o jantar do Conselho, e que até lá eles estavam silenciados por uma cláusula de confidencialidade estrita, figurando ainda no Conselho apenas de forma representativa.O fato era que ninguém sabia quem era o comprador.
Quando demos a informação para o Érick e o Julian, o clima de tranquilidade que havia se instalado nos últimos dias se quebrou. O Julian ficou nervoso, andando de um lado para o outro enquanto passava as mãos pelo cabelo perfeitamente alinhado. Enquanto o Érick parecia um leão enjaulado que sentia o cheiro de sangue no ar, mas não conseguia ver o caçador. Alguém estava comprando fatias gigantescas do Grupo Albelini em segredo. E esse alguém poderia ser o Simão ou poderia ser um completo estranho. E a falta de respostas estava enlouquecendo o Érick.
O plano de enfrentar o Simão e arrancar a cabeça do líder do Conselho teve que ser adiado. Não podíamos atacá-lo sem saber quem era o novo sócio. Teríamos que deixar o Simão para depois do jantar do Conselho. Isso teria que ser feito quando tivéssemos certeza de que o Simão não tinha mais poder do que pensávamos. E isso só aconteceria depois desta noite, depois do Jantar Anual do Conselho.
Eu ajustei o brinco de brilhantes diante do espelho do closet. O vestido de grife que a D. Heloísa havia escolhido para mim semanas antes era de um rosa pálido, colado ao corpo, com um decote generoso nas costas. Eu parecia a mulher doce e serena que o Érick precisava ao lado, mas por dentro eu estava caótica e tensa.
- Você está linda, Lô. Mas parece que vai para um funeral, não para um jantar de gala. - A voz de Marcelina veio da porta.
Eu me virei e a encarei. A Marcelina usava um vestido preto com uma fenda impressionante que subia quase demais até a parte superior da coxa. O vestido que ela usava tinha sido um presente da D. Heloísa, tinha a assinatura da elegância da matriarca Albelini, mas combinava perfeitamente com a audácia da Marcelina.
Ela acompanharia o Julian, o que deixou o Andrey emburrado por ser preterido, mas o Julian usou com ela, a mesma estratégia que estávamos usando contra os conselheiros: a chantagem! Ela não teve escolha e isso a tinha deixado bem irritada com ele.
Só que a irritação dela não me convencia tanto assim. Nos últimos dias, eu tinha notado um brilho diferente nos olhos dela. O Julian andava cercando a minha amiga de perto demais pela casa, com investidas nada sutis e um atrevimento que a deixava muitas vezes sem o que dizer. As defesas dela estavam começando a rachar, por mais que ela negasse, eu sabia que ela estava começando a deixar o Julian se aproximar mais.
- O Simão vai estar lá, Lina. - Eu sussurrei, caminhando até ela e segurando suas mãos frias. - E se ele comprou aquelas ações? E se ele já sabe de tudo e está esperando o jantar para me desmascarar na frente de todos? Na frente do Érick? O que eu vou fazer?
- Ele não sabe de nada, Lô. Se soubesse, já teria usado. O Simão não é do tipo que consegue guardar uma informação que o beneficia. E se ele pudesse, ele já teria deposto o Érick e entraria nesse jantar hoje como o soberano do Grupo Albelini. - A Marcelina apertou meus dedos com força, a lealdade estampada em seus olhos. Mas ela tinha razão, o Simão não esperaria para acabar com o Érick. - E se o Simão tentar respirar perto de você, eu enfio o salto na garganta dele. Fica tranquila, Lô, você tem a mim, o Érick e até o Julian e o Andrey, nós ficaremos de olhos bem abertos e o Simão não vai ter chance de te incomodar. Nós estamos no controle.

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