A voz de Daniel não tinha a menor oscilação, como se estivesse dizendo a coisa mais trivial do mundo: "Enquanto você estiver viva, quanto ao resto, faça o que quiser."
Se desmaiar de fome, leva injeção de nutrientes.
Contanto que esteja viva, o resto tanto faz.
Renata virou-se bruscamente, olhando para ele incrédula, os olhos se arregalando aos poucos, transbordando choque, incredulidade e uma pitada de fúria por ter sido completamente ferida.
"Daniel, o que você disse?"
A voz dela tremia.
Não era medo, era descrença.
Aquele que um dia disse que "daria a vida por ela", aquele guarda-costas que por mais de dez anos permaneceu atrás dela, nunca ousando levantar a voz.
Agora, ele usava esse tom para lhe dizer: sua greve de fome é inútil, se desmaiar vai para o soro, de qualquer forma você tem que ficar aqui.
"Eu disse", Daniel baixou os olhos para encará-la, o olhar insondável, "você pode não comer, eu não vou te obrigar. Mas também não pense em ir embora."
"Se a fome te derrubar, eu coloco você no soro, aplico injeções de nutrientes, garanto que você não morre."
"Se você quer resistir, eu posso resistir junto com você até o fim."
Renata olhava para ele, sentindo apenas que a pessoa à sua frente era assustadoramente estranha.
Mais de dez anos de companhia, confiança e dependência desmoronaram estrondosamente naquele momento.
Ele não estava fazendo birra, não estava ameaçando.
Ele falava sério.
Ele realmente pretendia usar esse método para prendê-la ali, vida após vida, sem descanso.
"Você está louco..." ela deixou escapar com a voz estrangulada, o fundo dos olhos gelado. "Daniel, você realmente enlouqueceu."
"Eu não estou louco", disse ele com calma. "Eu só não posso deixar você ir."
"Por quê?!" Renata elevou a voz bruscamente, as emoções finalmente saindo do controle. "Nós já terminamos há muito tempo! Você tem sua noiva, eu tenho minha vida, com que direito você me prende aqui?! Com que direito?!"
"Com o direito de não deixar você ir para a morte." O olhar de Daniel escureceu. "Você sabe melhor do que ninguém que lugar é a África e o que os Médicos Sem Fronteiras têm que enfrentar. Eu não vou deixar você ir."
"Isso é problema meu!"
"A partir de hoje, é problema meu."
Com uma frase, ele bloqueou todos os argumentos dela.
Renata tremia de raiva, o peito arfando violentamente, mas não conseguia dizer mais nada.
Ela ficava cada vez mais fraca, sentia tontura ao andar, falta de ar ao falar, e até abrir os olhos exigia esforço.
Mas ela continuava se recusando a comer um bocado, se recusando a beber um gole de mingau.
A dor física não chegava nem perto do frio em seu coração.
Gabriela veio mais uma vez.
Dessa vez, ela não fingiu mais gentileza. Parada na porta, olhando para uma Renata moribunda, o canto de sua boca se curvou em um sorriso extremamente tênue e dissimulado, mas seu tom continuava suave e frágil: "Irmã, para que tudo isso? O Daniel só quer o seu bem."
"Seja boazinha, obedeça, fique aqui e coma direito. O Daniel sempre será bom para você."
"Se você insistir em causar problemas, no final, quem sofre é você mesma, não é?"
Renata manteve os olhos fechados, sem se dar ao trabalho de responder.
Ela já tinha ouvido demais as provocações daquela fingida.
Quanto mais Gabriela agia assim, mais claro ficava para ela — ela jamais poderia desistir.
Ela precisava encontrar um jeito de contatar o mundo lá fora.
Daniel havia confiscado seu celular, cortado todas as suas formas normais de comunicação, mas ele havia esquecido que as pessoas que ela conhecia não eram apenas da Família Rocha.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Glória da Ex-Esposa
Ah não! Pq não continuam?????...