Era o pai dela.
Era aquele pai que a mimou desde pequena, que a protegeu, que permitiu que ela estudasse medicina, que aceitou seus caprichos e a deixou viajar por todo o país.
Ele tinha usado uma forma tão definitiva para impedi-la.
Chegou a ponto de ignorá-la e procurar Daniel diretamente.
Daniel olhou para o rosto instantaneamente pálido dela, e a corda tensa em seu coração vibrou dolorosamente.
Ele sabia o quanto aquela frase feria.
Mas ele não podia deixar de dizer.
Havia coisas que ele não podia explicar, não podia esclarecer, apenas suportar.
Renata deu um passo para trás, como se toda a sua energia tivesse sido drenada.
Ela olhou para o homem à sua frente.
Dez anos.
Ele a guardou, protegeu, acreditou nela, acompanhou-a.
Hoje, ele estava do lado oposto, segurando a faca que a pessoa que ela mais amava lhe entregou, e a cravou suavemente no lugar onde mais doía.
A noiva ao lado dele correu para tentar ampará-la, aconselhando com voz suave: "Irmã, não fique triste, estamos fazendo isso para o seu bem..."
Renata levantou os olhos bruscamente, com um olhar assustadoramente frio.
Aquele olhar fez a mulher estancar no lugar.
"Eu já disse", a voz de Renata estava rouca, mas ainda carregava um último traço de orgulho, "meus assuntos não têm nada a ver com você."
Ela não olhou para mais ninguém.
Não olhou para Daniel, não olhou para a sala cheia de amigos estupefatos, não olhou para aquele lugar que um dia lhe foi tão familiar.
Ela se virou, endireitou a coluna e, passo a passo, saiu.
Sua silhueta era frágil, mas ela não olhou para trás, não parou, não demonstrou nenhuma fraqueza.
A porta foi fechada suavemente.
Isolando o mundo lá dentro.
Daniel permaneceu no mesmo lugar, olhando para a porta fechada, os dedos se fechando gradualmente até as veias saltarem.
A noiva ao seu lado chamou baixinho: "Daniel..."
O caminho dos Médicos Sem Fronteiras tinha chegado ao fim antes mesmo de começar.
E ela e Daniel.
Dez anos.
Finalmente, naquela noite chuvosa, tudo virou fumaça.
No quarto, o clima estava pesado.
A mulher ao lado tentou quebrar o gelo, segurando o braço de Daniel: "Daniel, não fique bravo, a irmã só não sabe que estamos realmente preocupados com ela, não foi por mal."
A voz dela era macia, tentando contornar o conflito.
Mas a irritação no fundo do coração de Daniel já tinha atingido o limite, um abafamento indizível bloqueava seu peito.
Ele não respondeu. Puxou o braço bruscamente, com a testa franzida.
"Vou sair para fumar um cigarro."
O tom era frio e impaciente. Antes mesmo de terminar a frase, ele já tinha se levantado, atravessado o camarote a passos largos e saído.
No corredor, o vento frio bateu. Ele pegou um cigarro, acendeu e tragou profundamente, a fumaça encobrindo seu rosto sombrio.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Glória da Ex-Esposa
Ah não! Pq não continuam?????...