Chega.
Realmente, chega.
O ódio pode esperar, as pistas podem ser procuradas depois, e Vicente pode ser perseguido em outro momento.
Mas se ele se destruísse no processo, se perdesse as pessoas ao seu redor, de que adiantaria ganhar o mundo inteiro?
A chuva continuava a cair, sem sinal de trégua.
O céu e a terra estavam imersos em um branco nebuloso.
Aqueles longos segundos pareceram durar um século.
Finalmente—
Gregório recolheu lentamente o pé que havia levantado.
Ele se virou, sem olhar mais para a direção da montanha, e caminhou passo a passo de volta para o lado de Sófia.
Ele estendeu a mão, envolveu a mão dela, gelada pelo frio, firmemente em sua palma, usando o calor do seu corpo para aquecê-la.
Sua voz era grave, rouca, carregando um traço de cansaço, um toque de compromisso e a preciosidade de algo recuperado:
"...Vamos voltar para o hotel primeiro."
Sófia ergueu os olhos bruscamente.
Seus olhos avermelharam instantaneamente, e as lágrimas se misturaram à chuva, deslizando juntas pelo rosto.
Ela não disse nada, apenas assentiu levemente com a cabeça.
Gregório se abaixou, pegou Clara com um braço, segurou a mão de Enzo com a outra, e então, liberando uma das mãos, abraçou firmemente o ombro de Sófia, protegendo-a em seu abraço enquanto caminhavam passo a passo em direção ao carro no sopé da montanha.
O vento e a chuva continuavam violentos, e a estrada da montanha estava escorregadia.
Mas desta vez, ele não olhou para trás, para a montanha, nem sequer uma vez.
Em seu mundo, não havia mais apenas perseguição e ódio.
Havia a pessoa em seus braços, as crianças ao seu lado e um lar que precisava que ele voltasse em segurança.
Fora da janela do carro, a cortina de chuva era torrencial.
Dentro do veículo, estava silencioso, mas quente.
Ele não deveria ter dito nada.
Mas aquele paredão familiar, aqueles degraus de pedra, o som do vento e da chuva soprando pela floresta... num instante, tudo o puxou de volta para aquela memória de ser levado por Vicente através da mata.
Ele não conseguiu se controlar e deixou escapar.
Agora, no carro, o silêncio era quebrado apenas pelo som da chuva e o leve zumbido do ar condicionado.
Sófia quis falar várias vezes, quis mudar de assunto, quis dizer a Gregório para não pensar mais em Vicente, mas as palavras chegavam à boca e ela as engolia de volta.
Ela sabia que algumas coisas não passavam simplesmente fingindo que não aconteceram.
Gregório mantinha os olhos baixos, dando tapinhas leves nas costas de Clara. Só quando a filha se acalmou um pouco é que ele ergueu lentamente os olhos, e seu olhar pousou em Enzo.
Seu olhar não tinha aquela nitidez agressiva de quando estava na estrada da montanha, nem a urgência gélida. Era apenas pesado, silencioso, carregando uma cautela deliberadamente contida, com medo de assustar a criança novamente.
"Enzo."
Ele falou suavemente, baixando a voz o máximo possível para soar gentil.
O corpo de Enzo ficou ligeiramente rígido. Ele levantou a cabeça devagar, encontrou o olhar de Gregório, piscou os olhos levemente e respondeu em voz baixa: "...Papai."

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Glória da Ex-Esposa
Ah não! Pq não continuam?????...