A foz do Cidade Valeora.
Aqui escondiam-se inúmeros afluentes sinuosos, e os juncais eram tão densos que formavam uma barreira verde, isolando completamente o clamor do dia.
Vicente Oliveira estava encolhido no fundo de um pequeno barco de pesca, com o corpo envolto num casaco de tecido grosseiro manchado de lama.
Escondendo a nobreza de seus habituais ternos feitos sob medida, restava apenas a malignidade no fundo de seus olhos, que, sob a luz amarela e fraca da lamparina de pesca, pareciam estrelas gélidas banhadas em veneno, sem o menor sinal de ofuscamento.
O dono do barco era um velho pescador com o rosto marcado por sulcos profundos, coagido pelos remanescentes do bando de Vicente sob a ameaça de grandes somas de dinheiro e da segurança de sua família.
Neste momento, ele mantinha as costas curvadas, empurrando a vara de bambu, fazendo o pequeno barco deslizar de forma leve e lenta. A vara entrava na água, criando apenas um círculo de ondulações finas, sem ousar emitir qualquer som supérfluo.
O casco do barco deslizava rente à borda do juncal, as folhas roçavam na embarcação, emitindo um leve som de farfalhar que, misturado ao som do fluxo do rio, tornava-se o único ruído de fundo naquela noite.
Vicente mantinha os olhos fechados, mas não ousava relaxar nem por um instante, seus ouvidos capturavam, vigilantes, todos os movimentos ao redor.
Desde a fuga da emboscada policial até se esconder nestes juncais à beira do rio, ele havia feito um desvio de três dias inteiros, despistando várias ondas de buscas policiais, até finalmente aguardar por este barco de pesca rumo à fronteira.
Ele sabia perfeitamente que uma rede inescapável já havia sido lançada dentro de Cidade Valeora. Gregório Pacheco e a polícia certamente haviam concentrado toda a atenção nos canais formais de entrada e saída.
Somente este afluente remoto, contando com o conhecimento do caminho pelo velho pescador, oferecia uma fímbria de possibilidade de escapar de Cidade Valeora.
"Sr. Vicente, o posto de controle está logo à frente. A lancha de patrulha da polícia passa a cada hora, temos de esperar que eles passem para podermos seguir."
A voz do velho pescador tremia. Ele olhou para trás, para Vicente no fundo do barco, com os olhos cheios de pavor.
Ele pescara neste rio a vida inteira e vira muitas tempestades, mas nunca tinha visto alguém como Vicente.
Ele sabia que, mesmo passando por este posto de controle e chegando à fronteira, não estaria, de forma alguma, a salvo.
Gregório era meticuloso e certamente já previra que ele fugiria pela fronteira, a guarda lá seria ainda mais rigorosa do que dentro de Cidade Valeora.
Mas ele não tinha escolha.
Já não havia lugar para ele no país. A caçada de Gregório, as buscas da polícia e aqueles inimigos que chutavam cachorro morto após sua queda estavam todos esperando que ele caísse na rede.
Somente escapando pela fronteira e retornando à sua esfera de influência construída no exterior ao longo dos anos é que ele poderia se reerguer e lançar a vingança mais cruel contra Gregório, Sófia Lopes e todos os que haviam tramado contra ele.
Meia hora depois, o som do motor de uma lancha de patrulha veio do rio, aproximando-se e depois se afastando gradualmente.
O velho pescador colocou a cabeça para fora, confirmou que não havia ninguém por perto e apressou-se em empurrar a vara de bambu, tirando o pequeno barco do juncal e remando rapidamente em direção ao posto de controle da fronteira.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Glória da Ex-Esposa
Ah não! Pq não continuam?????...