Depois que Vicente saiu, Sófia não dormiu a noite toda.
Até o dia seguinte.
As manchas de sangue em suas roupas já haviam secado, formando crostas escuras que grudavam no tecido, com um cheiro adocicado e metálico que não desaparecia.
Sua mente estava um emaranhado.
Ela não sabia se a luz da sala de cirurgia havia se apagado, não sabia se a bala que roçou o coração de Gregório havia, de fato, tirado sua vida.
Foi nesse momento.
O som da fechadura girando soou abruptamente, quebrando o silêncio mortal.
Vicente abriu a porta e entrou, ainda trazendo o frio de fora.
Ele olhou de cima para Sófia, encolhida no canto, seu tom neutro, sem demonstrar alegria ou raiva: "Já pensou?"
Sófia levantou lentamente a cabeça, seus olhos cheios de veias vermelhas, o rosto pálido como papel.
Ela se apoiou em seu corpo dormente e conseguiu se levantar com dificuldade: "Este projeto não é meu, não sou eu quem decide."
"Os dados técnicos e as permissões principais estão todos com Gregório."
Ela encontrou o olhar de Vicente, cada palavra dita com firmeza: "Ele precisa estar vivo para ser útil para você."
Vicente ergueu uma sobrancelha, parecendo um pouco surpreso, e então riu baixo, mas não havia calor em seus olhos: "Você é bem inteligente."
Ele caminhou até o sofá e sentou-se, seus dedos batendo levemente no apoio de braço, produzindo um som abafado. "Ele ainda está na sala de cirurgia. A bala passou perto da artéria coronária, por pouco não foi fatal."
Ele fez uma pausa: "Lutamos por toda a vida. Se ele simplesmente morresse assim, eu sentiria pena."
O coração de Sófia afundou. A pedra que pairava sobre ela durante toda a noite, afinal, não havia caído.
Ela caminhou rapidamente até Vicente: "Contanto que você o salve, eu farei qualquer coisa que você pedir."
"Os dados, o esclarecimento, eu posso cooperar com tudo."
"Mas você deve garantir que não machucará minha filha Clara."
Vicente ergueu os olhos para ela: "É melhor não tentar nenhuma gracinha."
Sua voz era leve. "Você deveria saber que a vida de Clara, agora, está em minhas mãos."
"Você deveria entender claramente sua situação atual. Você não tem o direito de negociar comigo. Você fará o que eu mandar."
Depois de dizer isso, ele se levantou, ajeitou as roupas e, sem olhar mais para Sófia, foi direto para a porta.
Sófia respirou fundo.
Sentiu um aperto no peito e no coração.
Naquele momento, ela sentiu apenas um desespero infinito, sem ver um caminho a seguir.
Se pudesse, ela daria sua própria vida para mudar tudo.
Mas os planos de Vicente eram muito sérios e ameaçavam a segurança do país.
-
Vitória cobriu o rosto, sentindo-se péssima.
"Como ele está agora?"
"Não muito bem", respondeu Vicente. "Mas essa não é uma questão com a qual você deva se preocupar."
Com isso, Vicente desligou o telefone. A cinza do charuto foi levada pelo vento, espalhando-se no chão gelado.
-
Ao mesmo tempo.
No acampamento temporário na borda da plataforma de gelo da Antártida, o vento e a neve ainda uivavam.
Daniel estava parado na neve desolada, seu casaco preto à prova de frio manchado de neve, seu rosto tão sombrio que parecia que ia chover.
Ele e seus homens lutaram por um longo tempo com os subordinados de Vicente. Quando finalmente conseguiram escapar, descobriram que o rastro de Sófia e Gregório havia desaparecido completamente. Na neve, restava apenas uma poça de sangue já coagulado e escuro, tão chocante que apertava o coração.
"Sr. Daniel, o que fazemos agora?"
Um subordinado abaixou a cabeça, sua voz carregada de pânico.
Todos sabiam que Daniel tinha uma vasta rede de influência no exterior, transitando entre o submundo e a lei, mas neste lugar de gelo e neve, alguém havia escapado bem debaixo de seu nariz.
Daniel cerrou os punhos com força, os nós dos dedos brancos, enquanto o vento cortante açoitava seu rosto.
Seus lábios finos se apertaram, e as palavras que saíram eram frias como gelo: "Investiguem. Revirem céus e terra, mas encontrem-nos para mim!"
Ele queria ver que jogo Vicente estava tentando jogar. Ousar tocar nas pessoas que ele protegia significava estar pronto para pagar o preço.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Glória da Ex-Esposa
Ah não! Pq não continuam?????...