Quando viu a hora, já eram sete e meia. O ambulatório começaria às nove. Se ela continuasse deitada, não haveria tempo para tomar café da manhã.
Após se lavar, ouviu barulhos na cozinha e pensou ser Dona Ema.
No entanto, era Arthur.
O homem estava vestido com roupas casuais, exalando uma certa indolência fria e, incrivelmente, usava um avental e preparava comida.
Aquilo era absolutamente inédito. Era a primeira vez que via Arthur na cozinha.
O homem olhou para trás e viu a expressão estupefata de Beatriz.
— Nunca me viu? — Ele perguntou, com a voz magnética e ainda rouca pela manhã. — Está me encarando desse jeito. Resolveu achar seu marido bonito agora?
Beatriz esperava que Arthur estivesse furioso com a exposição de Sophia. Afinal, a discussão do dia anterior havia sido desastrosa, a ponto de ela ter passado o tempo todo se escondendo dele ao ir ao quarto de Sophia.
Mas ali estava ele, naquela manhã, fazendo o café da manhã em casa.
— Quer tomar café comigo? — A voz de Arthur soou fria, sem emoção.
Beatriz não pôde deixar de espiar os pratos sobre a mesa: macarrão azedo com frango desfiado, uma delicada travessa de frutas picadas e pequenos rolinhos de ovo. Desde a gravidez, seu paladar ficara muito mais suave e, muitas vezes, tinha dificuldade para comer. Esses alimentos refrescantes haviam despertado o seu apetite de uma forma muito precisa. Aquilo coincidia tanto com seus gostos, como se tivessem adivinhado seus pensamentos. Será que...
Porém, logo em seguida, Beatriz balançou a cabeça, lembrando-se de algo. Sophia também estava grávida, e por isso seus paladares não deveriam ser tão diferentes assim.
Não tardou muito, as suas suspeitas se confirmaram ao ver algumas marmitas na borda do fogão. A ficha logo caiu. Todo aquele esforço matinal era, de fato, para preparar o café de Sophia.
Ficava claro o empenho em cada prato, a atenção e o carinho dedicado. Um homem perfeito era aquele que dominava tanto as salas de reuniões quanto as panelas. E por Sophia, ele estava disposto a tudo.
Então Arthur não era naturalmente frio ou incapaz de cuidar de alguém. Simplesmente não tinha o seu pensamento voltado para ela.
Ela desviou o olhar, deu um pequeno sorriso e falou de forma impassível:
— Não tenho essa honra. Pode comer você.
Ela pegou um copo para beber um gole d'água e reparou que, após terminar de embalar a comida, Arthur também segurava um copo.
Eram dois copos de casal. O que ela usava estava com a estampa gasta de tanto uso, enquanto o de Arthur parecia praticamente novo.


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