Até o dia do enterro de Otávio Cavalcante, Beatriz ficou cada vez mais frágil e abatida.
Naquele dia, o céu estava nublado e uma garoa fina e densa caía sem parar.
Beatriz ajoelhou-se diante do túmulo do pai. As gotas de chuva caiam miúdas e incessantes, pousando sobre ela, até que, gradualmente, encharcaram seus cabelos e suas roupas.
Ela olhou para a foto do pai na lápide, com a visão aos poucos embaçada pelas lágrimas.
Lembrou-se de toda a bondade que ele lhe dedicara em vida. Por mais ocupado que fosse no trabalho, nunca esteve ausente em seu crescimento e sempre a mimou, dando-lhe tudo o que queria.
— Você vai acabar me mimando demais assim. — Ela dizia, com um sorriso aberto.
— Pelo menos você sabe que é mimada. — A mãe sorria, amável e carinhosa.
— A Bia é a princesinha da família. Se o papai não mimar você, vai mimar quem? — O pai dizia, olhando para ela com um sorriso.
— Pois é, a Bia é um tesouro e eu não passo de um matinho qualquer. — O irmão puxava o canto dos lábios, fingindo desdém.
— Que idade você tem para ficar disputando atenção com a sua irmã? — O pai lançava-lhe um olhar de falsa repreensão.
— Não estou disputando. — O irmão afagava a cabeça dela com carinho. — O seu irmão também vai mimar você daqui para frente. Não vou deixar ninguém te maltratar, Bia.
A outrora próspera família Cavalcante vivia em perfeita e alegre harmonia.
O que antes era um aconchego, agora era uma dor dilacerante.
Com a ruína repentina, a princesinha mimada havia se casado, reprimindo sua própria essência para servir ao marido, na esperança de conquistar o seu amor.
No fim, seu pai faleceu, sua mãe adoeceu, seu irmão desapareceu sem deixar rastros, e da família só restou aquela que um dia fora uma princesa mimada.
Agora, com o casamento desfeito e a carreira desmoronando a cada dia, ela havia perdido absolutamente tudo.
Beatriz chorava tanto que mal conseguia respirar.
Com o corpo frágil e esguio, ela abraçou a lápide do pai sob a chuva, com os olhos vermelhos do choro, abatida, porém firme: — Vá em paz, pai...
Ela cuidaria bem da mãe e investigaria a verdade por trás da morte do pai e da injustiça de sua prisão, para limpar o nome dele e da família.
Ao longe, Felipe Valente e Daniel Ventura não se aproximaram.
A voz de Felipe soou grave e magnética, carregada de uma leve melancolia: — Talvez ela queira ficar um pouco sozinha. É melhor não a incomodarmos.
Provavelmente ainda tinha muitas coisas para dizer, muita dor para desabafar e confidenciar ao pai.

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