— Foi a minha tia. Ela ficou com medo de eu passar fome e deixou tudo pronto antes de viajar. — Rebeca optou por mentir sem hesitar.
Com medo de que Helena desconfiasse de algo, ela mudou de assunto rapidamente:
— Me explica logo como temperar isso, os que eu fiz de manhã ficaram péssimos.
O cérebro de Helena sempre foi fácil de distrair. Ela logo esqueceu sua suspeita inicial e começou a explicar os passos para o tempero com toda a seriedade.
O problema é que Rebeca tinha gastado todas as suas habilidades na carreira. Até o tempero mais básico era um mistério para ela.
Então ela decidiu ser prática.
— Estou quase chegando em casa. Não desliga, vou anotar tudo num papel quando entrar.
Ela disse isso enquanto já entrava no elevador.
Helena concordou.
Assim que Rebeca destrancou a porta, avisou a amiga:
— Pronto, cheguei. Pode falar, o que eu coloco primeiro...
Sua frase morreu no ar ao ver uma figura alta e elegante saindo da cozinha.
— Primeiro você coloca um pouquinho de alho-poró e alga marinha na tigela...
Sem saber o que estava acontecendo, Helena continuava ditando os passos seriamente.
Samuel Batista colocou a tigela fumegante de sopa de mondongo com raviólis de camarão sobre a mesa de jantar.
Com uma voz suave, ele se dirigiu a Rebeca, que ainda estava congelada na porta.
— Chegou bem na hora. Acabei de preparar. Vai lavar as mãos e come enquanto está quente. Tem alguns dos seus acompanhamentos favoritos na cozinha, vou buscar.
A mente de Rebeca parou de funcionar por um instante.
Foi a voz sombria de Helena, ecoando pelo alto-falante do celular, que a trouxe de volta à realidade.
Ela perguntou:
— Amiga, por que diabos o Samuel Batista está na sua casa?
Rebeca ficou em completo silêncio.
Pega no flagra, ela simplesmente não sabia como se explicar.
A voz de Helena soou como um ultimato:
— Confessa logo que a pena vai ser menor.
Ela decidiu contar a verdade.
— Você sabe... Eu estava com muita febre ontem e com cólica, estava me sentindo péssima. Pensei em pedir para a Marina Domingos trazer remédios, mas a Marina também adoeceu...
Helena a interrompeu de forma implacável.
Ele tinha ido especificamente para cuidar de Roberta. Só dedicou um tempo para fazer sala para sua "esposa no papel" porque, por pura coincidência, descobriu que ela também estava lá.
No fim, tudo não passou de uma ilusão criada por ela mesma!
Helena se culpou por estar ocupada demais aproveitando a vida em vez de estar com Rebeca. Isso foi o que abriu a brecha perfeita para aquele cachorro do Samuel Batista atacar.
— Estou voltando agora mesmo! — Ela soltou a frase e desligou na cara de Rebeca.
Tinha medo de que, se demorasse um segundo a mais, Samuel conseguiria arrastar sua amiga para a teia dele.
Rebeca levou as mãos às têmporas e massageou-as devagar.
Samuel saiu da cozinha com dois pratinhos de acompanhamento. Vendo a expressão angustiada dela, perguntou com preocupação:
— A cabeça ainda está doendo?
— Não. — Ela suspirou pesadamente. — Helena descobriu que você está na minha casa.
Samuel apenas soltou um "Ah".
— Ela está na Cidade L agora. Mesmo que pegue o primeiro voo disponível, só vai chegar de madrugada. Não precisa se apressar. Coma o seu jantar primeiro.
Rebeca ficou sem palavras.
Ele estava absurdamente bem-informado sobre a vida das amigas dela.

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