Quando o casal voltou para a mansão, o humor de Patrícia continuava péssimo. Ela foi direto para a suíte. Heitor entrou atrás dela e se deitou abraçado com ela na cama.
Patrícia acabou pegando no sono, exausta, com a cabeça cheia.
Heitor, porém, não conseguiu ficar parado nem um minuto. Assim que ele percebeu que ela tinha apagado, ele saiu da cama com cuidado e começou a investigar.
Ele abriu a bolsa de Patrícia e vasculhou tudo. Ele só encontrou coisas comuns: carteira, maquiagem, chaves, um frasco de perfume, remédios de uso banal. Nada que chamasse atenção.
Depois ele foi até o closet e conferiu os objetos pessoais que ela usava no dia a dia. Roupas, joias, acessórios, necessaires, tudo parecendo perfeitamente normal.
De peça em peça, de gaveta em gaveta, Heitor acabou entrando no escritório.
Foi ali que a máquina antiga, com aquele ar retrô, chamou a atenção dele. Ao lado dela, estavam os desenhos de design feitos à mão por Patrícia.
Desde que ela tinha assinado o acordo de fornecimento de joias para a realeza em outro país, ela tinha se comprometido a criar e confeccionar pessoalmente, todos os anos, pelo menos duas coleções exclusivas para a família real. Por causa disso, Patrícia praticamente todos os dias sentava naquele posto de trabalho para desenhar, lapidar e fazer ajustes. Na viagem recente ao exterior, ela tinha feito questão de mandar a máquina por um esquema especial de transporte, só para não interromper o ritmo.
Heitor não entendia nada da estrutura interna do equipamento. Mas ele sentiu, logo que encostou, que aquilo tinha um peso diferente, um tipo de material que não parecia metal comum.
De repente, ele se lembrou de quem tinha sido o antigo dono daquela máquina: o fundador da Pesco Joias, a empresa que tinha ido à falência. Ele pegou o celular e fez uma busca rápida. A primeira notícia que apareceu dizia que a esposa do antigo controlador da Pesco tinha passado a vida inteira sem conseguir engravidar. Depois que a empresa tinha mudado de mãos para outros grupos, o negócio tinha entrado em decadência, até praticamente sumir do mercado.
O instinto de Heitor acendeu um alerta na mesma hora. Ele sentiu, quase com certeza, que havia algo de muito errado com aquela máquina.
No segundo seguinte, a raiva tomou conta dele. Ele avançou e empurrou o equipamento com força. A máquina tombou no chão com um estrondo. Heitor pegou uma ferramenta pesada, parecida com um martelo de oficina, e começou a detonar o equipamento, golpe após golpe, até transformar tudo em destroços.
O isolamento acústico do escritório era excelente. Do lado de fora, ninguém fazia ideia do que estava acontecendo.
Só ele saiu ferido. Um estilhaço de vidro atingiu o rosto dele e abriu um corte, fazendo o sangue pingar e se misturar com os cacos espalhados pelo chão.
Ele largou o martelo, sentou no meio da bagunça e ficou respirando ofegante. O arrependimento caiu sobre ele como uma enxurrada.
"Se eu nunca tivesse comprado esse lixo, nada disso teria acontecido."
Se ele não tivesse trazido aquela sucata para casa, Patrícia não teria sido exposta àquela possível radiação. Ela não teria ficado infértil. Naquele exato momento, talvez eles já estivessem comemorando uma gravidez.
Ele estaria prestes a se tornar pai. Patrícia seria mãe.
A dor apertou o peito dele. Ele se sentiu esmagado por uma culpa que parecia não ter fundo. Tudo tinha acontecido rápido demais. Rápido demais, ele tinha recebido a notícia de que ela não podia engravidar. Rápido demais, o médico tinha falado em DNA danificado por radiação. E ele, sem escolha, tinha sido obrigado a inventar uma mentira para protegê‑la. Ele não queria, em hipótese alguma, que Patrícia se visse como uma mulher defeituosa.
Naquele instante, o coração dela apertou de pena. Ela levou a mão ao pescoço dele, encostou de leve e franziu a testa:
— Por que tem sangue aqui?
Na pressa do banho, Heitor tinha ficado distraído. Ele nem tinha percebido o corte mais escondido naquela região.
— Deve ter sido na hora de fazer a barba, me cortei sem ver. — Respondeu ele, no ato, sem dar brecha para mais perguntas.
Ele não queria, de jeito nenhum, que Patrícia desconfiasse do que ele tinha feito no escritório.
Ela sentiu um medo súbito de que ele estivesse remoendo tudo sozinho, se culpando em silêncio.
— Heitor… — Disse ela, com a voz baixa, mas firme. — Eu não vou me divorciar de você.
O coração dele encontrou um pouco de paz.
Aquela mentira tinha valido a pena. Ela não só protegia Patrícia da verdade cruel sobre o próprio corpo, como também mostrava a ele que, mesmo se ele fosse realmente estéril, ela ainda assim escolheria ficar ao lado dele.

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