Capítulo 189
Derrick
O som da palavra “fugiu” ainda ecoava quando o pânico virou nó no meu peito. Não era só a fuga — era o que aquele homem poderia fazer com a liberdade. A imagem da Mia, pequena e confusa, apareceu na minha cabeça de repente. Porque estou com a sensação de que esse desgraçado vai atrás dela?
Luca estalou os dedos, e começou a gritar:
— Homens em formação! CADÊ O FRANCIS? FRANCIS! — berrou, impondo a ordem como quem administra a guerra.
Os homens se espalharam como ondas atrás dele. O reduto virou um formigueiro de passos e vozes. Eu senti as veias no pescoço latejarem. Cada segundo parecia um fole que soprava fogo nas minhas mãos.
Peguei o celular. Liguei para soldado chefe:
— Alô.
— Rômulo, estamos em alerta. Não diga nada as senhoras, mas coloque nossos homens pra vigiar dobrado. Possível risco de invasão.
— Certo Consigliere.
— Me mantenha informado.
Francis apareceu suado, a camisa grudada nas costas, um envelope amassado na mão. Parecia que tinha corrido uma eternidade entre prisioneiros, um cofre e um laboratório. Parou à minha frente, a respiração curta.
— VOCÊ ABRIU O RESULTADO? — Luca perguntou, já com a mandíbula cerrada.
Francis segurou o envelope como se fosse algo inflamável. Olhou pra mim, e eu pude ver — naquela expressão de quem carrega notícia ruim — que o tiro seria mais fundo do que eu queria.
— Acabei de abrir quando ouvi que o maldito fugiu. — ele respondeu, rápido. — Deu negativo, chefe. Completamente negativo.
A frase caiu como chumbo. Negativo. Não é pai. Não é sangue da Mia. O braço que segurava a arma tremeu um instante antes de eu puxá-la.
— Ele estava tentando ganhar dinheiro nas costas de vocês ou levar a menina. — Francis continuou, sem conseguir sossegar. — Se duvidar foi ele mesmo que roubou a mãe da criança e vendeu para os Mendez.
O nome Mendez soou como fio cortando pele. A raiva explodiu dentro de mim como uma metralhadora sem freio.
— FILHO DA PUTA! EU VOU MATAR AQUELE CARA! — Gritei, apontando a arma para todos os lados antes de raciocinar. A boca seca, o coração batendo na garganta. A violência era reflexo, sentença que saía antes da razão.
Antes de cruzarmos o pátio, um dos rapazes trouxe uma notícia curta, dizendo que as câmeras da ala oeste registraram um homem saindo às três da manhã pela porta de serviço. Um capuz, um carro dos nossos homens que ficou estacionado do lado de fora, uma placa parcialmente coberta — sinais que pediam intuição mais do que certeza.
— Quero todo mundo vasculhando a rota leste: posto de gasolina após a ponte, café 24h, rodovia. Ninguém passa sem ser visto.
Luca assentiu. Os olhos dele, normalmente tão controlados, tinham agora a tensão de um homem que sabe que uma decisão errada pode custar vidas. Ele passou a mão no rosto, contando segundos como se fossem munição.
— E a casa? — perguntei, porque a imagem da Rúbia com os meninos no sofá não me deixava.
— Vou mandar o João e mais três com elas. Tranque tudo, Derrick quando chegarmos. Leve a Riley e Rúbia pro porão blindado — respondeu. — Se for verdade o que esse verme falou, a prioridade é as mulheres e as crianças. Depois a vingança.
Não queria a vingança que consome; queria solução que devolvesse a vida ao normal. Mas sabia que, naquele mundo, pedir normal era pedir demais.
Peguei o rádio, a voz saiu áspera na garganta: instruí os homens, confirmei pontos de bloqueio, mandei buscar cães, pedi que um carro seguisse as últimas placas vistas pela câmera. A Amercana transformou-se numa máquina de busca bem lubrificada. O barulho era absurdo e preciso.
Enquanto o carro arrancava, prometi, baixo, sem som de testemunha: se encontrasse aquele homem — ou quem o mandou —, haveria contas a acertar.
Mas, ao chegarmos perto do portão da casa do Don, um movimento estranho me chamou a atenção. E quando ouvi um barulho de tiro, pisei fundo no acelerador.

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