Capítulo 190
Riley
As risadas das crianças davam um ritmo quase ingênuo ao jardim. Theo batia palminhas, ainda com resquícios de glacê na bochecha, e eu me permitia sorrir de volta — um sorriso pequeno, mas lindo. Do outro lado, Rúbia sentava no banco com Andrew no colo, embalando-o devagar, os olhos meio semicerrados de quem sabe o ofício de ser mãe mesmo cansada.
Peguei o Theo no colo e o balanço foi automático. Ele virou a cabeça, curioso, e eu respondi com mímica, fazendo um aviãozinho com a mão. Ele gargalhou daquele riso que é tiro de alegria. Ali, por um segundo, eu deixei a cabeça descansar.
A Mia estava no canteiro, concentrada demais para a idade — os dedinhos pequenos remexendo uma flor já meio murcha. O jardineiro, o senhor que sempre aparece às terças com as ferramentas e um boné marrom, viu e fez o gesto de sempre: tirou uma flor e a ofereceu à menina.
— Pode pegar essas que arranquei. Vou plantar umas mudas do lado de fora. Tem bastante — disse ele, com a voz grave, mas gentil.
Mia sorriu com a flor na mão, levando-a ao nariz como se fosse perfume raro. Rúbia comentou baixo comigo, satisfeita:
— O Andrew dormiu — e se levantou devagar.— Vou buscar o carrinho pra colocar ele.
Eu balancei a cabeça, curta, materna:
— Eu fico aqui com as crianças.
Rúbia levantou, e num movimento ansioso e prático, foi para dentro da casa. Eu a vi desaparecer pelo corredor da varanda. Fiquei olhando enquanto ela saía, ajeitando Theo no braço, e então o instinto de mãe me deu um puxão: Theo ficou mais quieto, a mãozinha no meu peito, e eu percebi o cheiro de vômito antes de ouvir qualquer som.
— Ah não — murmurei, sentindo o frio subir ao peito. — Esqueci a fralda na sala.
O coração apertou por um segundo. Tinha Rômulo ali, o segurança de sempre, encostado no portão como se fizesse figura decorativa; confiável, sempre atento. Levantei as sobrancelhas para ele numa pergunta silenciosa e, antes que pudesse pedir ajuda, Theo fez uma careta e uma pequena escorregadela de vômito escorreu pela gola. O tempo acelerou.
— Rômulo, pode ficar aqui com eles? Eu vou na sala rapidinho — disse, já me movendo.
Ele assentiu com eficiência, a mão no coldre. Foi um segundo — o suficiente para eu atravessar a sala e pegar a fralda, o pacotinho de lenços, a bolsa com itens de criança. Tudo prático, as coisas organizadas pelo instinto de quem tem filhos. Voltei pela varanda, carregando lenços e a fralda dobrada, com o coração um pouco mais leve.
Mas quando atravessava a última linha de grama ouvi, primeiro, um som agudo: o grito — fino, cortante — da Mia. A voz dela atravessou o jardim como vidro quebrando. Em seguida veio o grito de Rúbia, essa vez um som de força, de luta. O ar mudou. O sol continuava no mesmo lugar, mas o chão parecia ter perdido a ternura.
Acelerei. Theo veio correndo assustado na minha direção. O segurei no colo, se contorceu no meu braço; tive que segurá-lo com uma mão, os lenços na outra, e o mundo passou a andar em câmera rápida. Ao virar o canteiro vi a cena: um homem com as roupas do jardineiro — a mesma camisa de brim, o mesmo avental sujo e o boné — segurava Mia pela cintura como se fosse um objeto; Rúbia puxava, rasgando a camisa dele com as unhas, tentando arrancar a filha das mãos daquele estranho.
— Solta a minha filha!
— Merda! Merda! — o infeliz gritou.
O homem caiu de joelhos, os braços esticados, olhos enlouquecidos. Soldados apareceram do nada como se brotassem do gramado: um rompante organizado, braços surgindo, vozes. Em segundos o jardim estava cheio de passos, vozes, ordens cortantes. Agentes agarraram o homem pelas axilas, algemas estalando.
A adrenalina me deixou tonta; minha boca estava seca e ao mesmo tempo quente. Meu olhar procurou desespero por qualquer sinal de bala perdida, de trauma, e encontrou Rúbia inclinada sobre Mia, as mãos como uma carapaça. A menina tremia, o rosto molhado, mas viva. Theo estava colado ao meu peito, pálido, os olhos arregalados, e eu percebi o quanto valeu a pena aprender a ter precisão ao atirar.
Alguém gritou nomes — vozes longas que eu reconhecia: soldados, ordens. E, então, o grito que cortou o ar veio de outro lado: o som ensurdecedor de pneus cantando.
Um carro entrou na alameda do portão com violência, levantando poeira. O motor chorou alto e depois a tampa do capô foi pisada — o carro parou com um último arfar, e eu vi, pela vidraça embaçada, a figura de Derrick e Luca saindo do carro, o rosto duro em determinação. Eles desceram como dois comandos prontos, passos largos na grama.
Derrick veio até mim em dois saltos, o olhar cortando tudo, e a primeira coisa que fez foi olhar para as crianças. Luca já estava ordenando que os soldados cercassem o homem e verificassem se havia cúmplices. O jardim, que alguns minutos antes fora lugar de festa infantil, agora era uma arena de aviso: ninguém toca os nossos.
— Está tudo bem? — Derrick falou com pressa, e eu vi o dano que a cena trouxe a ele, porque a voz dele trazia um fio de exaustão e fúria misturados.
Rúbia ergueu a cabeça devagar, Mia apertada contra o peito, e balbuciou:
— Ela… ele... tentou levar a Mia.

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