Capítulo 188
Derrick
Amanheceu.
Mal clareou o dia, na verdade — o céu ainda estava meio cinza, indeciso entre noite e manhã —, mas eu já estava de pé. Andando de um lado para o outro no quarto, sem rumo, com os pensamentos batendo forte demais pra deixar o corpo quieto.
As possibilidades passavam pela cabeça como tiros: alguém vazou informação para aquele cara? Ele é o pai da Mia, no caso, o genitor? O que o Don planejava com aquele silêncio de ontem à noite? Será que ele já viu algum resultado?
Só percebi que estava apertando os punhos quando senti braços ao redor da minha cintura. O toque foi leve, quente — e por um segundo o instinto quase me fez virar armado.
— Calma. Sou eu, Derrick. — a voz dela veio suave, próxima ao meu ouvido.
Rúbia me olhou assustada com a minha reação.
Soltei o ar que nem sabia estar prendendo.
— Claro querida. Eu só estava distraído. — respondi, ainda virando devagar. Você dormiu bem?
— Dormi. Na medida do possível.
Rúbia me olhava daquele jeito que desmonta qualquer fachada. O cabelo bagunçado caía sobre o rosto, e os olhos — sempre tão calmos — me atravessavam como se lessem o que eu ainda tentava esconder.
— Eu sei que está me escondendo alguma coisa. — ela disse, firme, sem rodeios. — Por que não quer me contar?
Virei de frente pra ela, devagar. Passei a mão pelo cabelo dela, afastando uma mecha que caía sobre a orelha.
— Tem razão. Você sempre tem razão. — murmurei. — É que dessa vez foi um pedido do Don. Tem algo acontecendo sim, mas ele me proibiu de falar até pra você.
Os olhos dela estreitaram um pouco, atentos.
— Eu sabia. Não é a toa que estou preocupada.
— Se eu disser, ele vai saber. — continuei, mais baixo. — Já me livrei de ser castigado uma vez. Ele não vai me liberar de novo. Você me entende?
Ela respirou fundo, pensou por um instante e assentiu.
— Tudo bem então. Eu confio em você. Uma ordem do Don é importante.
Sorri de leve, e o peso dentro do peito aliviou um pouco.
— Você é incrível, sabia?
Francis ficou responsável em buscar o resultado do exame. Avisou que acabou de chegar no reduto.
Quando o portão metálico do reduto apareceu no horizonte, o rádio interno chiou, e algo no peito já avisou que tinha coisa errada.
Paramos. Os soldados abriram caminho, mas o silêncio era diferente — pesado, contido.
Assim que estacionamos, o alarme disparou.
O som cortou o ar como uma sirene de guerra.
Luca saltou do carro ao mesmo tempo que eu.
— Que porra é essa? — ele rosnou.
Um dos soldados veio correndo, suado, a respiração curta.
— Chefe! — ele gritou, a voz quase falhando. — O prisioneiro… o prisioneiro fugiu!
— Merda. — Murmurei.
O eco da frase ainda vibrava quando a mão de Luca foi direto à arma. E eu soube, ali, que o dia estava só começando.

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