Capítulo 173
Riley Black
(Meses depois)
Quarenta semanas.
Se alguém me dissesse que o tempo podia ser tão cruel com uma mulher, eu teria rido. Mas agora… agora eu entendia.
Eu já não andava, eu desfilava com esforço e fazia careta a cada passo.
— Luca, ele não quer nascer porque puxou você — reclamei, deitada na cama com a almofada entre as pernas. — Teimoso, controlador e achando que manda em tudo.
Ele, sentado ao meu lado, fingiu estar muito concentrado lendo algo no tablet, mas eu vi o canto da boca dele subir.
— Eu mando em quase tudo, docinho. Mas esse aí… esse aí herdou o trono cedo demais.
Revirei os olhos.
— Já está com quarenta semanas. QUARENTA. Eu queria parto normal, mas ele não quer sair. Acho que estou criando um inquilino vitalício.
Luca riu, encostando o tablet na mesa e passando a mão na minha barriga, onde Theodore parecia bem confortável.
— Chega. Vamos marcar a cesariana pra hoje mesmo.
— Hoje? Luca, eu ainda posso esperar um pouco...
— Riley, você já tentou de tudo. Chá, caminhada, música, bolo de chocolate, até sexo... — ele enumerou com os dedos. — Se ele não saiu até agora, é porque está esperando tapete vermelho.
Ri, meio sem graça.
— É que eu queria o momento natural, sabe? Aquela cena bonita...
— Bonita é ver você e o bebê bem. — Ele abaixou o tom, olhando direto pra mim. — Já chega de esperar. Vamos ao hospital.
Suspirei.
Aquele tom dele — meio autoritário, meio carinhoso — sempre acabava vencendo.
---
Chegamos ao hospital e, claro, Luca conseguiu transformar um parto em uma operação de guerra.
Dois carros à frente, um atrás, seguranças no corredor e uma enfermeira quase desmaiando ao ver o tamanho do anel que ele usava enquanto assinava os papéis da internação.
— Senhor Black, por favor, pode se sentar na sala de espera...
— Eu fico com ela. — ele cortou, direto, com o olhar que fazia até médico militar repensar a carreira.
A enfermeira engoliu seco.
— Claro... senhor.
Olhei pra ele, rindo.
— Luca, você não está invadindo uma base inimiga. É só um hospital.
— Hospital é lugar de risco. E eu não vou deixar ninguém encostar em você sem saber quem é.
— Está bem, chefe paranoico. — provoquei, e ele me lançou um olhar que, se não fosse pela barriga de nove meses, teria me feito querer beijá-lo ali mesmo.
---
Horas depois, eu já estava com o avental azul e sentada na maca.
O anestesista chegou, um senhor calmo, sorridente, e Luca ao meu lado, tenso como se fosse ele quem fosse entrar na cirurgia.
— Está tudo bem, Riley. — o médico disse. — Vamos começar em instantes.
— Espera, espera... — Luca se aproximou, preocupado. — Você tem certeza que esse homem é o anestesista?
O médico piscou, paciente.
— Sou eu mesmo, senhor Black.
— Documento. — Luca exigiu.
Eu comecei a rir tão alto que a enfermeira precisou pedir silêncio.
— Tudo sob controle — respondeu o pediatra com calma. — Só estamos limpando as vias. Ele engoliu um pouco de líquido, acontece com frequência.
Luca deu um passo à frente.
— Frequência ou não, ele está ficando roxo.
— Senhor Black, por favor... — tentou dizer a enfermeira, mas ele já estava ao lado da maca, observando cada movimento. As mãos dele estavam fechadas, os músculos do pescoço tensos.
Eu não conseguia falar. Só ouvia o som do aspirador e o coração batendo no ouvido.
Até que, de repente, Theodore chorou de novo.
Um choro longo, forte, cheio.
Aquele som que parece partir e curar a alma ao mesmo tempo.
Luca fechou os olhos, respirou fundo e levou as mãos ao rosto, como se tivesse voltado a viver.
— Isso, pequeno... respira. — ele murmurou, num tom que misturava comando e prece.
O médico sorriu.
— Pronto. Agora sim, o senhor pode relaxar. Está tudo bem. Pulmões limpos, batimentos perfeitos.
Luca só conseguiu balançar a cabeça, incapaz de responder. Ele limpou discretamente as lágrimas que escaparam, achando que ninguém veria — mas eu vi.
Minutos depois, quando colocaram Theodore no meu colo, ele ainda chorava baixinho, o rostinho vermelho, a respiração acelerada. Eu passei o dedo devagar pelo cabelo fino, e ele se acalmou.
Luca se inclinou e tocou a testa do bebê com os lábios.
— Meu Deus... — sussurrou. — Eu achei que o mundo ia parar.
— Parou. — respondi, com a voz fraca, mas firme. — Parou até ele respirar.
Ele sorriu, aquele sorriso contido, meio trêmulo, que só aparece quando o perigo passa e o amor ocupa o espaço inteiro.
Ficamos assim — nós três — respirando o mesmo ar, ainda cheirando a hospital, a vida, a milagre.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Roubada no altar pelo chefe da Máfia