Fernando continuava igual ao de sempre. Apesar de ser médico, ele falava como se estivesse no palco de stand up, com o tom animado e a voz sempre cheia de energia e esperança. Era impossível não notar o contraste entre esse jeito leve e a loucura que ele mostrava ao se beijar com Daphne.
Se Florence não tivesse enxergado através da máscara dele, teria achado, como quase todo mundo, que ser amigo de Fernando devia ser uma alegria constante.
Ela própria já pensou, em outra vida, que talvez todos os pecados de Fernando tivessem sido culpa de Lucian. Mas agora via com clareza: Fernando fazia de caso pensado. Quando ele operou Estela, já não pretendia deixá-la viva.
Naquele tempo, o último elo entre Florence e Lucian era a criança. Por causa do filho, Lucian jamais abandonaria a esposa e a filha. Ele só podia sentir pena de Daphne e do filho dela, que nunca seriam reconhecidos, e, ao mesmo tempo, tramava para sumir com mãe e filha.
Com Fernando e Daphne tramando juntos, Florence e Estela nunca tiveram chance.
O que Florence nunca imaginou era que esse homem, sempre tão alegre, seria capaz de ajudar a mulher que amava a se casar com seu melhor amigo, levando junto o próprio filho.
Enquanto ela se perdia nesses pensamentos, Fernando já estava diante dela, se agachando para examinar o pé machucado.
Ela sentiu a dor e afastou a mão dele, firme:
— Não encosta em mim!
Fernando se assustou com o tom dela. Florence nunca tinha sido exatamente carinhosa, mas sempre foi educada. Era a primeira vez que demonstrava tanta aversão.
Por um instante, Fernando ficou sem reação.
Só então Florence percebeu que tinha passado do ponto.
Ela sabia que, tanto Daphne como Fernando, eram mestres da dissimulação — olhos frios, corações calculistas. E, com o apoio de Lucian, não existia chance de vitória para ela.
Se Fernando percebesse que ela sabia demais, seria perigoso para ela.
Pensando rápido, Florence franziu a testa e se queixou:
— Meu pé dói só de mexer, melhor não tocar.
Fernando logo se recompôs e abriu um sorriso convincente:
— Era só avisar! Fica tranquila, deixa que eu cuido de tudo.
Para surpresa de Florence, ele se ajoelhou de um jeito cerimonial, com um joelho só no chão.
Nesse momento, a voz fria de Lucian ecoou atrás dela:
— Tá ajoelhando pra quê?
Fernando olhou para a própria perna e falou, brincando:
— Quer que eu fique de joelhos nos dois, é isso?
— Um pouco pro lado. — Lucian fez um gesto, impaciente.
— Eu vim examinar, não pedir em casamento. Qual a pressa? — Fernando entrou na brincadeira, mas se ajeitou, inclinando-se para ver melhor o ferimento de Florence.
Florence agarrou forte os braços da cadeira de rodas, sem entender até onde ia a encenação de Fernando. Ele realmente era do jeito que as enfermeiras e pacientes elogiavam: simpático, atencioso…
Mas ela sabia o que havia por trás.
Enquanto se perdia nos próprios pensamentos, Fernando terminou o exame, se levantou, bateu a poeira do joelho e olhou sério para ela.
— Foi só um arranhão leve, não passou de um corte superficial. O problema mesmo é a torção. Como você machucou?
Florence percebeu que ele estava tentando sondá-la. Esforçou-se para parecer natural:
— Foi no canteiro da frente do ateliê. Não vi o degrau e torci o pé.
Fernando sorriu:
— Entendi. Vou pedir pra te levarem pra fazer um raio-X, depois a gente cuida do resto.

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