Florence usou o celular para chamar um Uber, mas, como mais cedo ela tinha colocado o ponto de encontro na esquina, acabou se esquecendo de mudar o endereço. Quando percebeu o erro, o motorista já tinha aceitado a corrida, então ela só podia aguentar a dor e ir mancando até o local combinado.
Foi um trajeto curto, mas para ela parecia uma eternidade.
No caminho, Florence viu Rosana saindo do ateliê e chamou:
— Rosana, você… Pode me ajudar a andar?
No dia a dia, Rosana adorava bancar a melhor amiga. Florence pensou que era a hora de aproveitar isso, mas nem terminou de falar.
Rosana já olhava fixamente para o tornozelo dela e cortou:
— Desculpa, Flor, minha mãe acabou de me ligar dizendo que machucou as costas no trabalho, preciso ir pro hospital agora, não tem como te ajudar. Preciso correr.
No rosto de Rosana havia uma expressão de preocupação, mas nos olhos um brilho de diversão. Se Florence se esborrachasse ali mesmo, seria hilário. Ela até já estava abrindo a câmera do celular para filmar, só pensando em postar a vergonha da “ex-musa” no grupo da escola, pros puxa-sacos verem que ídolo também tropeça.
Enquanto pensava nisso, Rosana já tinha deixado o celular pronto na função câmera.
Florence não insistiu, se preparou para continuar andando sozinha.
Assim que virou as costas, um carrão preto parou ao lado da calçada. O vidro desceu devagar, a luz do fim de tarde desenhou ainda mais os traços marcantes do homem no banco de trás.
Ele levantou o olhar, os olhos escuros pareciam absorver toda a luz ao redor:
— Entra.
— Não precisa, eu consigo ir sozinha.
Florence lembrou da cena de Daphne tentando beijá-lo no carro e se afastou mancando, determinada a não aceitar ajuda.
De repente, Rosana, que até um segundo atrás só queria sumir, assumiu o papel de amiga do ano e correu para segurar o braço de Florence.
— Flor, deixa que eu te carrego! Sei que sou magrela, mas você é minha melhor amiga, posso te ajudar.
Florence quase bateu palmas para o teatro de Rosana.
Só que, sozinha, ela não ia conseguir andar rápido. Talvez, com Rosana, chegasse logo. E Rosana com certeza só queria impressionar Lucian, não ia fazer escândalo ali.
— Não precisa me carregar, só me apoia. — Florence apoiou a mão no ombro dela, querendo, mais do que tudo, se afastar de Lucian.
Para sua surpresa, Rosana fingiu se abaixar para ajudar, mas simplesmente se jogou no chão, fazendo drama.
— Flor, não se preocupa, você não pesa nada. Deixa que eu te ajudo a levantar.
Pela fala, parecia até que Florence estava aproveitando para descontar todo o peso nela.
Florence não resistiu e revirou os olhos. Por que ela ainda acreditava em Rosana?
Quando Rosana finalmente levantou, fez questão de olhar para o vidro do carro, como se toda a cena fosse digna de Oscar. Cada movimento era quase em câmera lenta.
De repente, Florence ouviu o barulho da porta do carro abrindo. Rosana, num piscar de olhos, virou a vítima perfeita, olhando para o homem que se aproximava.
— Sr. Lucian, sério, eu aguento! Eu consigo, de verdade! Eu…
Florence arrepiou até a alma. Como, em outra vida, ela achou que Rosana era mesmo sincera?
Sem paciência, Florence tentou seguir sozinha.
Nesse instante, Rosana parou de falar, e logo depois veio o grito de Florence:
— Ai!
O homem puxou a bolsa de Florence e, com um braço só, a ergueu do chão. Para não cair, ela foi obrigada a abraçar o pescoço dele.

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