Cap.97
A fumaça começava a subir das entranhas do prédio decadente, um fio cinzento e grotesco contra o céu noturno.
O cheiro de gasolina e destruição impregnava o ar, misturando-se ao metal do sangue que ainda parecia pairar sobre o local. A ordem de Adon tinha sido bem clara: tudo aquilo estava virando cinzas.
Dentro do carro, Selene era um pequeno embrulho de dor e choque.
Encostada na porta do passageiro, pernas dobradas contra o peito, braços envolvendo os joelhos.
Seus olhos estavam fechados, mas as pálpebras tremiam, presas em um limbo entre a exaustão total e um sono impossível, assombrado por luzes vermelhas e risadas cruéis.
Fora do carro, sob a luz fria de um poste quebrado, os três irmãos formavam um triângulo sombrio. Adon, de costas para o veículo, observava as primeiras chamas lamberem as janelas do segundo andar. Eles pareciam figuras sombrias, cobertas de terror — e de sangue.
Átila foi o primeiro a falar, sua voz um sussurro áspero que cortava o estalar das chamas:
— O Omar não estava lá dentro. Só capangas descartáveis. O que fazemos? Mais uma vez esse homem irritante está tentando manipular tudo à sua vontade.
Adon não virou.
— Foi uma provocação. Um teste. E ele conseguiu. — A voz dele era plana, mas a frieza era pior que qualquer grito. — Usou a Selene como isca para medir minha reação, bom...
— Ele acabou de descobrir. — Axel completou. — Ele descobriu uma fraqueza.
Axel cruzou os braços, o olhar vigilante varrendo os becos ao redor.
Adon finalmente se virou, seu olhar indo direto para a figura encolhida no carro.
Algo se contraiu em seu rosto: uma fúria canalizada para algo metódico e letal.
— Vamos triplicar a segurança. Dois homens em turnos de seis horas, sempre fora de vista, mas com linha direta. Rastreamento no celular dela, no sapato, no que for. Ela não dá mais um passo sem que eu saiba.
Ele olhou para os irmãos.
— Chegamos a tempo hoje. Por um triz. Mas foi sorte.
— Pura sorte de ainda estarmos perto quando a van passou. Estávamos relaxando no turno da noite. Isso não pode acontecer de novo. Ela dorme, respira e anda sob nossa proteção total. Vinte e quatro horas. — Axel afirmou.
Átila assentiu, sério.
— Foi um milagre. Se tivéssemos ido embora cinco minutos antes… Mas o importante é que a tiramos de lá. Viva. — Ele franziu o cenho. — O que disseram os homens que revistaram o andar? Encontraram algo que nos leve ao Omar?
— Nada útil. — respondeu Axel, cuspindo no chão com desprezo. — Armas baratas, drogas, dinheiro sujo. Coisas de operação de baixo nível. O Omar é cuidadoso. Ele não se mancha diretamente. Só solta os cachorros.
Enquanto a conversa prosseguia, a menos de cinquenta metros dali, escondidos na profunda escuridão de um beco estreito entre dois prédios abandonados, dois homens testemunhavam a cena.
Mathias, com um olho inchado e o nariz sangrando de algum confronto recente, esboçou um sorriso torto ao ver as chamas crescerem.
— É… isso aí custou a vida de mais de vinte homens. Caro pra caralho. Mas pelo menos agora você viu com seus próprios olhos, chefe. Viu o quanto essa vadiazinha importa para o Adon. Ele transformou o antro num crematório por ela, uma mulher qualquer que ele encontrou na cama de outro.
Ao seu lado, imóvel como uma estátua, estava um homem mais alto e esguio, usando um sobretudo escuro e um chapéu de aba larga que jogava sua face em completa sombra. Era Omar. Seu silêncio era mais eloquente que qualquer palavra de Mathias.
— Não é só isso, Mathias. — A voz de Omar finalmente saiu, baixa, educada — e por isso mesmo infinitamente mais ameaçadora que qualquer rosnado. — Eu conheço o Adon desde que ele era um garoto raivoso seguindo o Don. Tem algo mais nisso.
Mathias o encarou, confuso.
— O quê? Porque ela salvou a vida dele?
Omar negou com um movimento quase imperceptível da cabeça.
Lentamente, tirou uma luva de couro e colocou a mão fria sobre o ombro de Mathias, fazendo-o estremecer.
— Não é só dívida. A Selene… ela é alguém com quem o Adon, em sã consciência, jamais pensaria em se envolver. Muito menos de forma tão… obsessiva. Na verdade, ele nem imaginaria qual reviravolta… Nunca pensei que o caminho deles se cruzaria de novo assim.
Ele fez uma pausa, observando Adon dar ordens finais aos irmãos antes de se dirigir ao carro.

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