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Quarto errado, Mafioso certo! romance Capítulo 96

Cap.96

Em meio àquela bagunça, agora não tinha mais ninguém ao seu redor.

As figuras que a cercavam haviam desaparecido, substituídas por uma névoa de fumaça e escuridão e por uma silhueta que parecia ser sua salvação.

Mãos fortes, porém não brutais como as anteriores, a puxaram do colchão. Ela foi manuseada com uma urgência quase violenta, mas o toque era diferente — tinha um objetivo que não era causar dor. Sentaram-na na beirada do colchão imundo.

— Selene! Selene, olhe para mim!

A voz chegou até ela como se viesse de dentro d’água. Masculina, rouca, carregada de uma tensão que perfurava o torpor.

— Você está bem? Onde eles te machucaram?

Ela piscou lentamente, tentando forçar os olhos a focarem. As luzes vermelhas ainda dançavam, mas uma forma maior e mais sólida começou a se definir diante dela.

Até que finalmente seus olhos o viram — e marejaram de alívio.

Seu rosto estava perto do dela, os traços nítidos mesmo na penumbra.

Seus olhos, sempre tão impenetráveis, estavam escancarados, varrendo seu rosto, seu corpo, em busca de ferimentos.

Havia sangue respingado em sua têmpora, mas não parecia ser dele.

Ao vê-lo, ao reconhecê-lo completamente, Selene não se jogou em seus braços. Ao contrário. Ela encolheu-se ainda mais, como um animal ferido, abraçando os próprios braços com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.

O vestido vermelho, outrora símbolo de um sonho, agora era um manto de vergonha.

Adon percebeu a reação. Sua expressão, antes de pura urgência, suavizou-se por uma fração de segundo.

— Está tudo bem — ele disse, a voz mais controlada, mas ainda tensa como um fio de aço. — Está tudo bem agora. Eu vou te levar embora daqui.

Ele a analisou de cima a baixo, seu olhar parando em cada possível marca, cada rasgo no tecido.

— Eles te tocaram? — perguntou, com urgência.

Foi então que as palavras de Mima, venenosas e precisas, voltaram à mente de Selene com força total. “O charme é justamente isso. A pureza. Quando você ceder… ele vai virar fumaça, após ter o que quer.”

Mas Selene pensou… e se eu não for mais?

A dor, a violência do sequestro, o terror dos últimos minutos, tudo se fundiu em uma amarga e resignada certeza.

Ela levantou o olhar para ele. Não havia lágrimas agora. Apenas um vazio terrível.

— Está feito, Adon — ela disse, a voz estranhamente plana, sem eco. — Eu não sou mais virgem. Não precisa mais se preocupar com isso.

As palavras caíram no quarto como blocos de gelo.

A expressão de Adon congelou instantaneamente. Todo o ar pareceu ser sugado do ambiente.

A suavidade que havia nele evaporou-se, substituída por algo rígido e perigoso. Seus olhos, que examinavam Selene com preocupação, agora se fixaram nela com uma intensidade assustadora.

— Eles… — a voz dele saiu mais baixa, uma vibração perigosa. — Eles tocaram em você? Se atreveram…?

Selene apenas confirmou com um leve, quase imperceptível movimento de cabeça.

— Sim… — sussurrou. — Eles tocaram.

A raiva que emanou de Adon naquele momento foi uma força física. Selene viu seus músculos da mandíbula se contraírem, suas mãos se fecharem em punhos tão tensos que os ossos pareciam prestes a romper a pele.

Seus olhos escureceram, não com tristeza ou decepção, mas com uma fúria assassina, primordial.

Para Selene, aquela fúria era direcionada a ela. Era a confirmação de seu pior medo. Ele estava irado porque a mercadoria estava avariada.

O brinquedo estava quebrado. O que ele queria se foi.

Sem dizer uma palavra, Adon se virou. Suas costas largas, agora rígidas como uma parede de aço, foram a última coisa que ela viu antes dele sair do quarto.

A porta, já arrancada das dobradiças e pendurada de forma precária, foi empurrada com tanta força que o metal rangido bateu contra a parede com um estrondo final.

Então, silêncio.

Um silêncio profundo, pesado, causado pela porta especial à prova de som que ainda funcionava nas bordas.

Selene ficou sozinha no quarto iluminado de vermelho, agora também habitado pelos corpos silenciosos no chão e pelo cheiro de sangue e pólvora.

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