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Quarto errado, Mafioso certo! romance Capítulo 183

Cap.182

Pov Selene.

O celular pesava na minha mão como um bloco de chumbo.

Mathias o tinha colocado ali, na minha palma suada, com um sorriso que tentava ser tranquilizador, mas que não alcançava seus olhos.

— Pegue. Ligue para elas. Para suas amiguinhas — ele disse, a voz suave, quase um coaxar venenoso. — Quero que você veja que pode confiar em mim. Que não está em um cativeiro. Está sendo bem cuidada.

Cuidada. A palavra ecoou, vazia. Eu estava em uma gaiola de seda, mas ainda era uma gaiola. E aquele gesto não era gentileza, era um teste. Uma armadilha de vidro. Se eu dissesse algo errado, se eu vacilasse, a frágil liberdade que eu conquistara jogando o jogo deles, assinando aquele contrato abominável, se desfaria.

— Oi, meninas… é Selene…

Quando ouvi a voz delas do outro lado, meus lábios tremeram.

— Sisi, como você está?

— Eu estou bem… e feliz de estar falando com vocês.

— Nós… — a voz de Gildete vacilou, como se houvesse algo importante demais para ser dito. — Você está sozinha? Claro que não, não é?

— Ah… — olhei ao redor enquanto Mathias me analisava. — Eu vou me casar em breve. Queria tanto que vocês viessem… o que vocês acham disso? — disse apenas para ganhar tempo.

— Olha só… Adon não é seu irmão. Ele é filho de outro homem. Você é filha do Alex com a Samilly. Vocês não são irmãos, então tudo o que aconteceu entre vocês não foi algo errado. Ele, de alguma forma, sabia que você entraria em contato com a gente.

— Ah… meninas! — balbuciei, em alívio, mas a encenação precisava continuar. — Eu vou me casar com o Mathias…

O mundo desabou e se reconstruiu em um único segundo. O ar foi arrancado dos meus pulmões. Um alívio tão violento e avassalador que quase me fez dobrar sobre o telefone.

Não é meu irmão. Nunca foi.

Mas, junto com o alívio, veio a fúria. Uma fúria negra e fervente, dirigida ao homem que tinha o rosto do homem que eu amava. Omar. Tudo era mentira. Tudo era manipulação.

— Olha… não sei o que está acontecendo aí, mas… hoje… hoje foi o enterro da Madre e do nosso tio Arthur! Ele foi ao orfanato, mas chegou no momento errado, quando estavam saindo com a Madre. Percebeu que havia algo estranho, seguiu eles e acabou sendo executado junto com ela.

Eu gritei internamente.

— Meninas… eu sei que o que Mathias fez no passado foi grave, mas ele mudou… — balbuciei, disfarçando. — Estou com tanta saudade de vocês… — escondi a emoção.

As palavras de Gildete eram facas girando no meu coração.

A Madre.

A mulher dura, cheia de falhas, mas que tinha sido um porto.

A única presença constante de uma autoridade — por mais distorcida que fosse. Eu sabia que ela não tinha opção, que, no final… era apenas uma mulher tentando fazer o máximo de crianças sobreviverem em um lugar já dominado pela máfia.

Mas foi morta. Por minha causa. Por causa do jogo de poder de um monstro.

Senti as lágrimas queimando atrás dos meus olhos, uma onda de desespero e luto tão grande que ameaçou me arrasar ali, na frente de Mathias.

Não. Eu não podia. Não aqui. Não agora.

Forcei um sorriso. Deve ter sido a expressão mais dolorosa e falsa da minha vida.

Os músculos do meu rosto puxaram contra a vontade.

— Ah, meninas! Meu casamento será em breve, não se preocupem! — minha voz soou estridente, forçadamente animada. Um canto de pássaro preso. — Não estou sendo obrigada a nada, não! Eu assinei porque quis! Estou… estou decidida. Além disso… não quero nunca mais saber de Adon.

Do outro lado, Gildete entendeu na hora. Sua voz se tornou um murmúrio rápido, urgente, misturado ao meu monólogo de fachada.

— Olha… ainda tem mais. Você não vai acreditar, mas foi o Omar que matou sua mãe anos atrás. E quase te matou também. Só que, naquela época… você esqueceu tudo por causa do choque. Mas foi o Adon — o garoto que convivia com você em sua casa — que te salvou. Ele pediu para te contar tudo isso, para que você possa resolver as coisas. Ele confia em você. Além disso… desde o início, Omar sabia que você estava viva e usou isso como peça de manipulação.

Ele confia em você.

A frase final foi um impulso de força.

Enquanto eu tagarelava sobre como Mathias tinha mudado, sobre as flores, sobre o vestido de noiva, as palavras verdadeiras de Gildete entravam em mim como um soro da verdade — envenenado e vital.

— Ok, meninas, eu tenho que ir. Obrigada — cortei, a voz ainda presa no tom artificialmente doce.

Desliguei o celular antes que meu controle se desfizesse por completo. Minhas mãos tremiam violentamente.

Entreguei o aparelho de volta a Mathias. Ele o pegou, seus dedos passando levemente sobre os meus. Seu olhar era inquisitivo, procurando rachaduras na minha performance.

— Pronto? — ele perguntou, a voz suave novamente. — Viu? Pode confiar mais em mim. Você não está em um cativeiro. Está sendo bem cuidada. Eu não vou mais te maltratar. Prometo que vou ser um bom marido, como deveria ter sido desde o início.

Ele se inclinou e colocou um beijo seco na minha bochecha. O contato fez minha pele arrepiar de nojo. Abaixei a cabeça, escondendo os olhos, e deixei escapar um pequeno sorriso — o mais convincente que pude.

— Obrigada, Mathias.

— Precisa de algo? — ele perguntou, a mão ainda no meu ombro.

— Não. Só… só preciso descansar um pouco. Posso ficar sozinha?

Ele hesitou por uma fração de segundo, então assentiu.

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