Cap.161
A tensão na cozinha era igual à de uma cripta, um cabo de guerra silencioso entre duas vontades de ferro. Do lado de fora, espreitando pela estreita brecha da porta entreaberta, Axel e Átila seguravam a respiração ao ver Selene, de mão estendida, declarando guerra contra o próprio pai.
— Caraca. Ela tem o mesmo gênio forte do Alex. Como eu nunca notei? O jeito de erguer o queixo, o olhar que perfura… é ele em versão feminina, e com um turbilhão a mais de mágoa. — Axel comentou, analisando a cena com obstinação.
— Se for assim… ela não vai se dobrar. Nunca. E vai ser um caminho impossível para ele reconquistar a filha. Olha só. Ela tá com a mão estendida, cumprimentando ele e selando um pacto de inimigos. É óbvio que o Alex não vai apertar. Como ela quer que o próprio pai a declare como inimiga?
Por um instante, parecia que Átila estava certo. Alex Felix olhava para a mão estendida de Selene como se fosse uma serpente.
Seu rosto era uma máscara de conflito, os músculos da mandíbula tensionados. Mas então, movido por um impulso que nem ele mesmo compreendia totalmente, sua mão se ergueu.
Ele não apertou a mão dela. Ele a envolveu. Sua mão grande, acostumada a assinar sentenças de vida e morte, fechou-se com uma suavidade trêmula em torno da mão menor e áspera de Selene.
Não era um cumprimento de inimigos, mas a tentativa desesperada de um pai tocar sua filha pela primeira vez em consciência.
Seus olhos, os mesmos olhos cinza que ela detestava, fixaram-se nos dela com uma intensidade dilacerante, de um apelo mudo, de um desespero tão profundo que era quase físico.
Selene sentiu. Sentiu o tremor sutil, a pressão que não era de força, mas de… necessidade. Comprimiu os lábios, tentando sustentar a fúria, mas algo naquele olhar, naquele toque estranhamente vulnerável, atravessou todas as suas barreiras.
Seus próprios olhos, contra a sua vontade, marejaram. A dor no peito, aquela dor absurda e recorrente na presença dele, apertou com uma força nova, como um grito vindo de um lugar muito antigo dentro dela.
Ela puxou a mão com força, brusca, como se tivesse tocado em fogo.
— Inimigos hoje, inimigos sempre! — a voz dela saiu rouca, carregada de uma emoção que beirava o pânico e a estranheza daquele cumprimento.
Alex não disse nada. Permaneceu com a mão no ar por uma fração de segundo, vazia. Então, com um movimento deliberado, colocou a pequena caixa de veludo azul sobre a mesa da cozinha, ao lado da poça de café. Virou-se e saiu, seus passos ecoando com uma solenidade fúnebre no corredor silencioso.
No corredor, momentos depois.
Axel e Átila interceptaram Alex, que caminhava com a postura rígida, os olhos fixos em algum ponto distante e doloroso.
— Por que você apertou a mão dela, pai? Você basicamente confirmou o pacto de inimizade que ela propôs!
Alex parou. Lentamente, virou-se para os filhos. A máscara do magnata havia rachado de vez. Em seus olhos, havia uma verdade nua e agonizante.
— Eu só queria apertar a mão da minha filha — sua voz era surpreendentemente suave, quebrada. — Essas palavras… “inimigos”… elas não têm calor. Elas não têm peso real. Como um pai pode ser inimigo da própria filha?
Ele respirou fundo e, quando falou novamente, havia na voz a frieza de uma decisão de guerra — mas uma guerra íntima, pessoal.
— Eu vou conquistar a Selene. A todo custo. Mesmo que custe a minha própria reputação, meu orgulho, minha própria vida. Eu quero vê-la me olhando um dia… não com esse ódio e desprezo… mas como o pai dela. Como seu pai.
A declaração pairou no ar, tão profunda que até Átila, cético e duro, ficou sem palavras.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!