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Quarto errado, Mafioso certo! romance Capítulo 161

Cap.160

(POV Selene)

A exaustão era um peso doce nos meus ossos, misturada à gratificação de um dia inteiro ao lado dele, decifrando o caos que era o império Felix. Deixei o último relatório na mesa e me estiquei, as vértebras estalando em protesto.

— Estou esgotada — declarei, minha voz soando mais queixosa do que eu pretendia. — Vou à cozinha fazer um lanche para a gente. Algo que não seja café ou documentos.

Adon, imerso em uma planilha no computador, ergueu os olhos. Um fio de preocupação suavizou a linha severa de sua boca.

— Pode descansar antes na sala de descanso, se quiser. Eu sei que é trabalho demais para absorver em um dia.

Meu coração deu um salto tonto. Era estranho, essa versão dele — atento, quase… carinhoso — e ainda assim com aquele ar profissional do homem mais importante da cidade. E isso porque ele era. Aproximei-me da sua cadeira e, num impulso, sentei-me de lado em seu colo. Seus braços me envolveram imediatamente, como se fosse o lugar mais natural do mundo.

Ele enterrou o rosto na curva do meu pescoço, os lábios quentes encontrando minha pele. Não foi um beijo de desejo ardente, mas algo mais profundo, mais demorado.

Uma afirmação silenciosa. Cada segundo em que seus lábios repousavam ali era uma promessa que eu não sabia precisar de quem.

Meu corpo inteiro reagiu, a pele se arrepiando, um tremor percorrendo minha espinha. Um aperto súbito e agudo fechou meu peito — não de medo, mas de uma emoção tão avassaladora que doía.

Ele percebeu minha respiração falhar. Afastou-se o suficiente para me encarar, os olhos cinza-escuros examinando meu rosto.

— O que foi?

As palavras saíram antes que eu pudesse filtrá-las, cruas e vulneráveis.

— Te amo tanto que às vezes meu peito dói.

Ele ficou em silêncio. Por segundos que pareceram horas, apenas me olhou, como se decifrasse uma linguagem perdida em meus olhos. A expressão dele era complexa, uma tempestade de algo que parecia admiração, culpa e uma reverência profunda.

— Estou ouvindo algo tão raro de ser ouvido por você… — a voz saiu rouca, quase um sussurro. — Ainda não me acostumei. — Fez uma pausa, os dedos traçando minha mandíbula. — Mas também te amo, Selene. Te amo muito mais do que você imagina.

Era verdade. Eu sentia. E era justamente essa verdade que me afogava. Ter ele correspondendo era fascinante e emocionante desde que me declarei naquele restaurante ao ar livre do último andar.

Aproveitei a fragilidade do momento, a doçura envenenada que nos envolvia, para fazer a pergunta que queimava minha língua.

— E… você pretende se casar comigo? Já que me chama de esposa para os outros.

Seus olhos não se alteraram. A resposta veio imediata, suave.

— Tudo o que você quiser, Selene. Já disse. Você é minha. De todas as formas.

Tudo o que você quiser. A resposta certa. A resposta que qualquer mulher desejaria ouvir. Então, por que meu coração afundou como uma pedra em um poço sem fundo?

Porque soou como um acordo comercial, não como um sonho. Porque, no fundo, eu sabia que o maior obstáculo para qualquer “tudo o que você quiser” era um homem prepotente, disposto a interferir na minha felicidade a qualquer custo. Mas eu não estava mais disposta a permitir.

Levantei-me de seu colo de repente, a dor no peito agora como a de uma faca cega.

— Vou fazer o café — disse, minha voz anormalmente plana.

Ele tentou segurar minha mão, mas eu já me virava, fugindo daquela sala.

Na cozinha privativa do andar executivo, movi-me no automático. Moer os grãos. A água ferver. O aroma amargo e reconfortante do café inundando o ar.

Tentei me concentrar no ritual, no calor da xícara entre as mãos, no som do líquido sendo despejado. Qualquer coisa para não pensar.

Foi então que senti. Uma mudança na pressão do ar. Uma presença às minhas costas que não era dele. Era mais pesada, mais antiga, impregnada de uma autoridade que me fazia encolher por dentro antes mesmo de me virar.

Virei-me.

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