Cap.157
O mundo desfocou novamente. A proposta era absurda, já que ela teria que lidar novamente com Alex.
— Não — a resposta saiu automática, carregada de pânico. — Não posso voltar para lá. Você sabe o que aconteceu. Seu pai… a Rose… Mima…
— O Grupo Felix não é mais o reino exclusivo do meu pai. É meu, e livre de qualquer interferência de Alex. — A voz de Adon era uma lâmina, cortando objeções. — E eu não estou pedindo para você voltar como uma estagiária qualquer. Você será meu braço direito. Minha assessora pessoal. Minha secretária pessoal, com acesso a tudo, com um salário que refletirá sua importância. Você ficará no escritório ao lado do meu. Todos os dias. E, na maioria das vezes, no meu trono.
— Por quê? — Selene perguntou, verdadeiramente confusa. — Por que você faria isso? Depois de tudo… por que me daria tanto poder?
Adon fechou a distância finalmente, mas apenas para colocar as mãos nos ombros dela, com um toque firme, mas não agressivo. Seu olhar era intenso, quase hipnótico.
— Porque você é a única pessoa neste mundo em quem eu confio sem reservas. Porque você é forte, inteligente e me entende de uma forma que ninguém mais entende. E sei que você é capaz o suficiente. Estou te dando a chance de provar o quão incrível você é. — Ele estava falando de Selene, que vestia a roupa de alguém abandonada e sem estudo mais do que todos, mas suas palavras, sem que ele soubesse, perfuravam camadas mais profundas da identidade dela. — E acredito que você não quer voltar para aquela boate, não é? Para aquele lugar onde homens como Montenegro acham que podem te tocar.
Selene olhou para as mãos dele, grandes e quentes em seus ombros.
— E se eu disser não? — ela sussurrou, uma última tentativa fútil.
— Você não vai. — Ele não estava ameaçando; estava afirmando um fato. Ele conhecia sua coragem e seu cansaço da luta solitária. — Você vai voltar comigo. Não como uma empregada. Como minha parceira. Para todos verem.
Ele soltou seus ombros e estendeu a mão, não como uma ordem, mas como um pacto.
Com um fôlego trêmulo, ela colocou a mão na dele. A dela era fria. A dele, quente.
— Está bem — ela capitulou, a voz quase inaudível.
— Eu só quero te mostrar que ninguém mais vai ousar te desrespeitar.
— Não vou mais rejeitar boas oportunidades, já que é assim.
Um sorriso satisfeito, porém sombrio, tocou os lábios de Adon. Ele a puxou suavemente para um abraço rápido, impessoal.
— Amanhã será um novo começo para nós dois.
No dia seguinte, no saguão principal do Grupo Felix.
O burburinho habitual morreu instantaneamente quando as portas do elevador exclusivo se abriram.
Adon Felix saiu, não com a expressão fechada de costume, mas com uma autoridade radiante e calculada. E, ao seu lado, de mãos dadas com ele, estava Selene.
Ela estava impecável em um tailleur cinza elegante, mas simples. Seu rosto estava pálido, porém sereno, os olhos fixos à frente.
A mão de Adon a envolvia, e funcionários pararam no meio do caminho, copos de café esquecidos no ar. Sussurros se espalharam como um rastilho de pólvora.
“É ela… a estagiária… a que causou a confusão…”
“O presidente está de volta… e trouxe ela?”
“O senhor Felix não era contra essa garota?”
Adon não olhou para os lados. Caminhou direto para o centro do saguão, diante da grande escadaria de mármore. Parou. A atenção de todos os andares, das varandas, estava voltada para eles.
Com uma voz que ecoou clara no silêncio absoluto, ele anunciou para todos os funcionários daquele andar:
— A partir de hoje, Selene será minha Secretária Pessoal e Assessora Executiva. Ela terá acesso total ao meu escritório e autoridade direta em meu nome. Qualquer ordem dela é uma ordem minha. Qualquer desrespeito a ela é um desrespeito a mim.
Ele ergueu a mão entrelaçada com a dela, um gesto simbólico e feroz.
— Deem as boas-vindas a ela. E lembrem-se: ela não está aqui por favor. Está aqui por direito.
Adon havia retornado ao trono. E trouxera consigo, para o mundo inteiro ver, a mulher que era, sem que ele soubesse, a própria razão de seu antigo luto.
E agora, também, a peça central de seu futuro.
A tarde no escritório do topo do arranha-céu do Grupo Felix foi um turbilhão meticuloso. Adon, de volta ao seu elemento, era um general reconquistando seu território.
Pilhas de contratos, relatórios financeiros truncados pela sua ausência e propostas de negócios aguardavam sua assinatura e seu olhar implacável.
O ar estava carregado do silêncio intenso do poder concentrado, quebrado apenas pelo som suave de páginas sendo viradas, da caneta de Adon riscando o papel e pelo teclar discreto de Selene em um laptop que ele providenciara para ela.
Ele a colocara em uma escrivaninha elegantemente minimalista, posicionada não do lado de fora, como seria o de uma secretária comum, mas dentro do próprio escritório executivo, em um canto com vista para a cidade.
Ela lidava com e-mails, triava ligações e organizava sua agenda com uma eficiência surpreendente, mas seu olhar, por vezes, perdia-se na paisagem urbana lá fora ou pousava nas costas largas de Adon enquanto ele falava ao telefone, em voz baixa e ameaçadora. Cada gesto dele era familiar e, agora, agonizantemente proibido, mesmo sendo tão elegante.
Ela ainda sorria com a ironia dos dias passados. Até então, pensava que ele era apenas um vagabundo vivendo às custas dos outros, mas parecia que os outros é que viviam às custas dele.
— Quantos segredos mais ele tem?
— Você não se cansa de me observar? — ele perguntou, com a voz calma, ainda concentrado no laptop.
— Não sei se consigo desgrudar do seu corpo… não sei… — ela murmurou, apertando os olhos e balançando a cabeça.
— Você poderia ir para casa — Adon disse, sem levantar os olhos, já no fim da tarde. O sol começava a se pôr, pintando o céu de laranja e roxo atrás dos vidros. — O pior já está feito. O resto eu termino amanhã.
Selene, que organizava pastas em um arquivo, parou. Ir para casa significava solidão. Desde cedo, estava grudada em Adon — na verdade, desde ontem. Ele não desgrudara da casa deles, ainda mais depois de Axel ter sido tão bem tratado lá. Adon não queria dar espaço para Axel aparecer novamente e tentar se aproveitar.
— Prefiro terminar isso — ela respondeu, a voz um pouco firme demais. — Se vou ser seu braço direito, preciso entender a profundidade da bagunça. Afinal, nos dias em que você passou longe da empresa, parece que tudo parou. Vou ficar e te ajudar.

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