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Quarto errado, Mafioso certo! romance Capítulo 156

Cap.155

Selene piscou, confusa, as lágrimas parando por um instante.

— Mima… o que você está dizendo?

— Eu não disse para você tomar o lugar dela! — Mima cuspiu as palavras, a voz subindo um tom, carregada de um desespero antigo. — Isso não muda nada! Você sabe que eu nunca te tratei como minha irmã! Éramos melhores amigas… isso já deveria ter sido superado. Mas você fez isso… mentiu e tomou o lugar dela!

Num movimento súbito, alimentado por anos de frustração, Mima empurrou Selene com força. Desequilibrada, Selene caiu de lado no gramado bem cuidado, encarando Mima com choque.

Mima ficou de pé, olhando para baixo. Sua figura, recortada contra a luz cinzenta do amanhecer, parecia a de um espectro vingativo.

— Engraçado. Todos os anos eu te digo a mesma coisa. Desde o primeiro ano depois do incêndio, desde que você teve a maldita ideia de mentir sobre a sua identidade… Naquela época, eles estavam tão preocupados em identificar meninas órfãs que, se meu nome fosse esterco, assim ficaria, não é? E você se aproveitou disso.

Selene tentou se levantar, uma dor não física começando a latejar em suas têmporas.

— O que você quer dizer, Mima? Eu não…

— Mas você sempre chora e diz que sente muito, e depois esquece! — Mima a interrompeu. O choro agora era de raiva pura. — Eu sempre te disse, sabe por que eu sempre te tratei desse jeito? Por que sentia tanta raiva? São tantos motivos… mas esse é o pior! Você sempre esquece o que eu te falo!

A voz de Mima se partiu em um fluxo caótico de dor represada:

— “Devolva o túmulo da minha irmã, Selene! Quantos anos mais você vai debochar da minha dor? Eu visito você no túmulo e depois te encontro em casa… eu só quero paz! Cansei de disfarçar isso em ataques. Todos acham que tenho inveja… mas eu escondi o que você fez comigo! Você entende tudo errado e faz tudo errado! Se queria trocar de lugar, deveria ter morrido também! Me deixa ter um luto em paz!”

Selene ficou paralisada. Um zumbido começou em seus ouvidos. Fragmentos de sons — vozes abafadas pela fumaça de sua memória — ecoaram.

“Devolva… devolve ela…”

— Você… você já me pediu isso antes? — a pergunta saiu como o sopro de alguém que está se afogando.

A reação de Mima foi visceral. Um grito abafado escapou, puro cansaço e exasperação.

— Você é doente! Doente! Sempre a mesma pergunta! E depois diz que vai fazer, mas sabe o que acontece? Esquece! Seu problema de memória seletiva nunca acabou! Nunca sarou! Você sempre esquece! E isso acaba comigo!

Mima caiu de joelhos novamente — não em reverência, mas em exaustão desesperada. O corpo sacudia em soluços convulsivos.

— Isso é um inferno. Todos os anos, no aniversário da morte dela, eu te peço, te imploro aqui, sobre o túmulo: “Devolva! Devolva minha irmã! Me deixa visitar ela com o nome dela!” Porque eu sei que ela está morta. Eu sei que ela está enterrada aqui. Mas com o seu nome… isso é insuportável.

Ela ergueu o rosto. Os olhos vermelhos e ardentes encontraram os de Selene, agora pálida como a lápide atrás delas.

— Você é a Simone — Mima sussurrou. A acusação final, a verdade nuclear que carregara sozinha por anos, saiu como um segredo envenenado. — Liberte a minha irmã. Devolva o nome dela a este túmulo. Devolva meu direito de chorar por ela sem a sensação de estar vendo o seu nome… às vezes até duvidando da minha sanidade. É tão injusto… Você acha mesmo que assim foi melhor?

A voz de Mima quebrou.

— Eu já não tinha nada. Um túmulo… com aquilo que eu mais amei… era tudo o que eu queria. Queria que você sentisse a mesma dor de perder algo para os outros como eu perdi isso para você. Pode ficar com tudo, mas… só isso. Eu quero ela de volta. Quero chorar meu luto em paz. Sozinha.

Selene encarava Mima, o mundo ao seu redor desmoronando em câmera lenta. As palavras não faziam sentido — e, ainda assim, ecoavam em uma parte profunda e adormecida de sua alma, como uma chave girando numa fechadura enferrujada.

O nome Simone na lápide já não era apenas o nome de uma amiga morta. Era um reflexo fantasmagórico no espelho quebrado de sua própria identidade — uma identidade que ela enterrara e que, naquele momento, com tudo o que Mima dissera, ela já não lembrava mais por quê.

O amanhecer, antes silencioso, agora gritava com a verdade que Mima finalmente vomitara após anos de silêncio obrigatório.

— Você foi abandonada pouco depois da gente — Mima continuou, a voz agora um fio de dor crua, como quem abre uma ferida antiga. — Não lembra? O carro preto. O homem elegante que chorava. Foi diferente de quando eu e Simone fomos abandonadas. Nós fomos largadas no meio do caminho, numa noite fria. Quando fomos acolhidas, encontramos você no quarto sozinha.

Ela respirou fundo.

— Você tinha oito anos. Agarrada a uma mala cheia de brinquedos caros. Eu, com a mesma idade, só com a roupa do corpo. Assim como a Selene, que parecia até que ia morrer de frio. Éramos filhas de mães diferentes, mas do mesmo pai ausente. Ele não podia ficar com nenhuma de nós. Eu sabia quem ele era. Sabia o quão cruel nosso pai era. E você… você só chorava chamando pela sua mãe, enquanto nós duas nem sequer sabíamos o nome da nossa.

Mima fechou os olhos, transportando-se de volta no tempo.

— Você não falava com ninguém. Ficava encolhida num canto, abraçada àqueles brinquedos. Até que a Selene… — ela engasgou no nome, abrindo os olhos para Selene com dor infinita — …até que ela se aproximou. Não quis seus brinquedos. Quis você. Dividiu o pão. Esquentou suas mãos geladas nas dela.

A voz tremeu.

— Mas antes disso éramos só nós duas. Foi o que juramos em frente àquele orfanato em ruínas, debaixo daquele lampião quebrado. Eu disse que não éramos ninguém. Ela disse que éramos alguma coisa. Estendeu a mão e falou: “Você é metade de mim.” E eu respondi: “Você é metade de mim.” Juramos ser a metade uma da outra. Para sempre.

As lágrimas de Mima correram livres agora, um rio de décadas de luto represado. Ela se jogou sobre a lápide, os punhos batendo fracamente no granito negro.

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