Antes do erro: POV Rachel
O silêncio do meu casamento não começou de repente.
Ele foi entrando devagar, como poeira em uma casa fechada.
Primeiro foram as mensagens curtas.
Depois, as noites em que Eduard chegava tarde demais para qualquer conversa que não fosse sobre trabalho.
E então… o toque desapareceu.
Sem brigas, sem trauma.
Só ausência.
Eu estava deitada ao lado dele muitas noites e, ainda assim, me sentia sozinha.
Naquela semana, eu tinha parado de contar os dias.
Um ano era uma palavra grande demais para dizer em voz alta. Um ano sem sexo “de verdade” parecia um exagero, como se eu estivesse dramatizando algo que, para ele, era apenas cansaço. Rotina. Pressão.
Mas eu sabia a diferença entre fase ruim e abandono.
Na cozinha, de manhã, o café já estava pronto quando Eduard apareceu. Camisa impecável, cheiro de colônia cara, o mesmo olhar sério de sempre. Ele beijou minha testa — um gesto automático, quase corporativo — e abriu o celular antes mesmo de sentar.
— Você vai cedo hoje? — perguntei, tentando soar casual.
— Reunião com o Adrian. — A resposta veio sem levantar os olhos. — Depois tenho call com investidores.
Adrian.
O nome passou por mim como uma lâmina fina. Não doía… ainda. Só marcava.
— Você janta em casa? — insisti.
Eduard suspirou, como se eu tivesse feito uma pergunta difícil demais para uma terça-feira.
— Rachel, eu tô numa fase pesada. A gente conversa depois, tá?
Depois.
Essa palavra também tinha virado rotina.
Eu encarei minha xícara por um instante, sentindo uma coisa ruim se formar no fundo do peito: a sensação de que eu estava pedindo migalhas para o homem que me chamava de esposa.
— Tudo bem — respondi, porque era o que eu sempre respondia.
Ele saiu antes de eu terminar o café.
E eu fiquei ali, parada no meio da cozinha, com a xícara nas mãos e uma certeza incômoda: eu estava começando a desaparecer.
No escritório, eu funcionava.
Sempre funcionava.
Eu era a advogada que resolvia crises antes que elas virassem escândalo. A mulher que lia contratos como quem lê pessoas. A que nunca se confundia, nunca perdia o controle, nunca deixava emoções transbordarem onde não era permitido.
Ali, eu ainda existia.
Foi por isso que eu cheguei cedo naquele dia.
O prédio estava mais silencioso do que o normal. Os corredores cheiravam a limpeza recente e ambição velha. Entrei na minha sala, larguei a bolsa e liguei o computador, tentando esquecer a conversa da cozinha como quem apaga um arquivo.
Eu estava abrindo uma pasta de documentos quando a notificação apareceu: reunião remarcada — sala 12 — 8h30.
Sala 12.
A sala 12 era onde decisões importantes aconteciam. Onde ninguém levantava a voz, mas tudo parecia um pouco mais tenso do que deveria. Eu respirei fundo e peguei minha prancheta com anotações.
Quando cheguei, a porta estava entreaberta.
Eu empurrei devagar.
A sala estava vazia… ou quase.
Adrian Weiss estava lá dentro, sozinho, de pé perto da janela. O sol da manhã entrava pela vidraça, cortando o ambiente e destacando a silhueta dele como se aquela sala tivesse sido construída para enquadrá-lo.
Ele não estava de terno completo ainda.
Só a camisa branca, mangas dobradas. O relógio no pulso. A postura calma de quem não tem pressa.
Eu congelei por um segundo.
Não porque ele era bonito — embora fosse, de um jeito indecente.
Mas porque havia algo em Adrian que sempre me deixava alerta: a sensação de que ele via demais.
Como se nenhuma versão minha fosse suficiente para enganá-lo.
— Rachel — ele disse, virando o rosto. A voz baixa, segura. — Você é pontual.
— Bom dia — respondi, controlada, entrando e fechando a porta atrás de mim.
Ele sorriu de leve.
Não era um sorriso gentil.
Era um sorriso que sabia coisas.
— Eduard ainda não chegou? — perguntei, indo direto ao assunto.
— Ainda não. — Adrian inclinou a cabeça, como se observasse uma reação que eu não queria mostrar. — Mas vai chegar.
Eu me sentei, abri a prancheta, fingi normalidade.
— Então podemos adiantar a pauta.
— Podemos — ele concordou, mas não se sentou.


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