Primeira Noite: POV Rachel
O quarto era silencioso demais.
Não o tipo de silêncio confortável, mas aquele que parece observar. Larguei a bolsa sobre a poltrona e fiquei alguns segundos parada, ainda de sapatos, absorvendo o espaço. Cama grande. Luz indireta. Cortinas pesadas que escondiam a cidade lá fora.
São Paulo parecia distante demais para ser real.
Tirei o blazer, pendurei com cuidado exagerado e caminhei até o banheiro. Lavei o rosto com água fria, observando meu reflexo como se procurasse algum sinal de descontrole. Não havia. Só cansaço. E uma atenção excessiva aos próprios movimentos.
Deitei ao lado de Eduard, senti o colchão afundar quando ele se virou de lado. A respiração dele se regularizou rápido demais, como sempre acontecia quando o cansaço vencia qualquer tentativa de conversa.
Fiquei imóvel, olhando para o escuro.
O quarto era o mesmo.
A cama, a mesma.
O homem ao meu lado também.
Nada tinha mudado.
E, ainda assim, tudo parecia fora do lugar.
Ouvi o barulho distante do elevador no corredor. Portas se abrindo. Passos abafados. O hotel nunca dorme de verdade — só reduz o volume.
Adrian estava no mesmo andar.
Em outro quarto.
Seguindo a própria rotina como se nada tivesse acontecido.
Fechei os olhos, incomodada com o fato de essa informação existir na minha cabeça sem ter sido convidada.
Eu sabia — com uma clareza que me irritava — que o problema não era a proximidade física.
Era o espaço que ele ocupava quando não estava presente.
Virei de lado, de costas para Eduard, e puxei o lençol até o ombro, como se isso pudesse organizar algo por dentro.
Era só uma viagem.
Só trabalho.
Mas o silêncio daquela primeira noite me deixou claro algo que eu ainda não estava pronta para admitir:
O perigo estava em perceber que, mesmo ali com meu marido ao lado, minha mente já não estava inteira onde deveria.
A manhã chegou cedo demais.
A luz cinza atravessava a fresta da cortina quando acordei com o movimento de Eduard ao meu lado. Ele se levantou em silêncio, já no modo automático de sempre, pegando o celular antes mesmo de sair da cama.
— Bom dia — murmurou, distraído.
— Bom dia.
Ele foi para o banheiro, falando algo sobre horários, trânsito, café da manhã rápido. Eu fiquei deitada mais alguns segundos, encarando o teto, tentando organizar pensamentos que insistiam em se sobrepor.
No espelho do banheiro, meu rosto parecia normal. Cansado, talvez. Mas normal. Prendi o cabelo, lavei o rosto, escolhi uma roupa discreta demais para chamar atenção — e, ainda assim, senti aquela vigilância interna que não costumava existir.
Descemos para o café juntos.
O salão estava cheio de executivos, conversas baixas, xícaras sendo pousadas com cuidado. Peguei café, frutas, algo leve demais para alguém que precisava de energia. Eduard se sentou à mesa e abriu o celular antes mesmo de tocar no prato.
Foi então que senti.
Não precisei olhar para identificar a presença.
Adrian estava ali.
Em outra mesa. Camisa clara, postura relaxada, atenção dividida entre o café e os próprios pensamentos. Ele levantou o olhar no instante exato em que me sentei.
Não sorriu.



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