No dia seguinte, o sol no horizonte anunciava a tarde e Nicola Moretti já devorava o asfalto, o volante do seu carro espremido entre os dedos trêmulos. O risco de ser caçado pelas lentes famintas da imprensa pouco importava. A prudência era um luxo ao qual ele não podia mais se dar; procurar Juliana em seu apartamento seria erguer um muro onde ele precisava urgentemente escavar uma ponte. Ele não suportaria mais vinte e quatro horas de silêncio.
Ao cruzar as portas espelhadas do suntuoso império do Grupo Salvattore, Nicola buscou o único meio de ajuda ao tempestuoso oceano de seus erros: Henry Salvattore.
Na sala da presidência, a atmosfera era densa, quase sufocante. Henry observava o amigo com o cenho franzido, decifrando sem esforço os sinais implacáveis de um homem à beira do colapso.
— Pela sua ansiedade e pelo tremor nas suas mãos, meu amigo, eu vejo que o fantasma de vocês vai exigir uma conversa dolorosa.
Pontuou Henry, a voz baixa e carregada de uma solidariedade sóbria.
— Vou disponibilizar esta sala para vocês. Fiquem totalmente à vontade. Tenho uma reunião no conselho que vai se arrastar pela tarde inteira. Vou chamar a Juliana aqui sob um pretexto profissional... Ela virá sem ter a menor ideia de quem a espera. O resto depende de você.
— Eu nem sei como agradecer, Henry...
Murmurou Nicola, o peito subindo e descendo.
— Eu não enxergava mais nenhuma outra saída.
— Deixe os agradecimentos para depois.
Henry já puxava o gancho do telefone com precisão cirúrgica.
— Vou ligar para o Departamento de Relações Públicas agora mesmo. Quando eu sair, darei ordens expressas à minha secretária: ninguém sobe, ninguém interrompe. Custe o que custar.
No andar inferior, o ar condicionado do Departamento de Relações Públicas parecia insuficiente para aliviar o calor abafado da rotina. Juliana mantinha os olhos fixos em um relatório complexo, debatendo métricas com Alessio, o diretor do setor, quando o toque estridente do telefone estraçalhou a sua concentração.
Ao atender, o timbre grave e impecavelmente cortês de Henry ecoou do outro lado da linha.
— Juliana? Boa tarde. Preciso que venha até a minha sala imediatamente, por favor. É urgente.
— Claro, senhor Salvattore. Estou subindo sem demora.
Ao desligar o fone, Juliana soltou um suspiro profundo, o peito apertado por um involuntário espasmo de nostalgia amarga.
"Tão diferente do ogro do Nicola".
Pensou, sentindo um vinco familiar formar-se em sua testa.

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