O único vestígio de sua passagem por este mundo era a pequena Gianne. A garotinha crescia forte e saudável, enchendo os corredores outrora sombrios com suas primeiras risadas, uma faísca de vida em meio a tantos mistérios.
Para surpresa de todos, Nicola renascera como um pai devotado. O executivo implacável, conhecido por reuniões infinitas e sangue-frio nos negócios, agora contava os minutos no relógio. Pontualmente às cinco da tarde, abandonava a mesa do Grupo Moretti, ignorando chamadas e contratos, para se dedicar inteiramente à filha. Aos finais de semana, a rotina se repetia: ele levava Gianne e a babá para seu apartamento particular, criando uma bolha de proteção ao redor da menina.
Para a imprensa, Nicola lançara uma nota fria e calculada: era pai de uma menina nascida na Suíça via barriga de aluguel. Nenhuma pergunta, nenhuma brecha. Os tabloides até tentaram associar a criança ao sombrio desaparecimento de Caterina, mas a teoria ruiu por si só. Caterina virara fumaça. Ninguém sabia, ninguém viu.
O teatro perfeito, no entanto, trincou na penúltima visita de Nicola à mansão.
Enquanto olhava a filha adormecida no berço, a voz grave e impositiva de Donato cortou o silêncio do quarto rosa. O patriarca da família não pedia; ordenava com o olhar.
— Nicola, vamos ao escritório.
Já no escritório...
— Nicola, preste atenção no que vou lhe dizer.
Começou Donato, servindo duas doses de uísque com as mãos firmes.
— Você precisa se casar. Gianne precisa de uma madrasta, e você, de mais filhos. Não pode passar o resto da vida remoendo o passado. O legado dos Moretti exige um herdeiro homem para ocupar o seu lugar no futuro. Por que você ainda não procurou a Juliana?
O ar no escritório pareceu rarefazer. Nicola enrijeceu os ombros, os nós dos dedos ficando brancos ao redor do copo.
— O problema é justamente esse, vovô.

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