O apartamento de Juliana cheirava a café fresco e conselhos não solicitados. Na sala, Isabel segurava a xícara como se fosse um escudo protetor enquanto ouvia o tribunal amoroso de uma mulher só.
— Isa, na boa, quando é que você e o Alessio vão assumir esse rolo?
Juliana disparou, gesticulando tanto que quase derrubou o vaso da mesa.
— Já faz três meses! Três meses de puro e cristalino sigilo conspiratório! Por que diabos vocês estão tratando esse namoro como se fosse um segredo de Estado da Guerra Fria?
Isabel suspirou, afundando ainda mais no sofá.
— Ju, você não entende... Se os meus pais descobrirem, eles vão querer gerenciar a minha vida de novo. Tenho pesadelos só de lembrar! Depois do desastre nuclear que foi o meu casamento com o Chernobyl do meu ex, fiquei traumatizada.
— Traumatizada você devia ter ficado com o look do seu ex no altar! Você viu as fotos? Ele casou ontem com o amante.
— Juliana rebateu, sem filtro.
— Eu vi, tomara que leve chifres igual fez comigo.
Disse Isabel.
— Isa, você é dona do seu próprio nariz, paga os próprios boletos. Não pode deixar seus pais ditarem as regras. Aquele seu ex-marido não te respeitava, te traía e tinha a capacidade empática de um tijolo. O Alessio é o oposto! Ele ama mulheres decididas. Se os seus pais tentarem dar palpite, ele vai ser o primeiro a te defender com unhas e dentes.
— Isso é verdade...
Isabel sorriu amarelo, brincando com a alça da xícara.
— Ele já me disse algo assim. E eu realmente estou gostando dele. Ele é fofo, me atura, traz comida...
— Claro que é! Ele é o chefe do meu departamento, eu convivo com o homem!
Juliana se gabou, jogando os cabelos para trás.
— Quando descobri que o "cara misterioso" era ele, quase soltei fogos de artifício na firma. Vocês foram feitos um para o outro, então para de drama e assume logo essa paixão!
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Enquanto isso, a alguns quarteirões dali, a cena era um pouco mais... caótica.
Desde que haviam se casado, Valério e Vittória moravam em uma cobertura elegante. Elegante, ao menos, até aquela noite. Quando Valério girou a chave da porta e pisou na cozinha, achou por um segundo que tinha entrado no cenário de um tufão de neve. Havia farinha na bancada, no chão, no teto e até nas sobrancelhas da esposa.
— O que exatamente aconteceu aqui?
Valério perguntou, pisando devagar para não derrapar no pó branco.
— A cozinha foi atacada por um padeiro enfurecido?
— Estou cozinhando...
Vittória respondeu com a maior naturalidade do mundo, limpando o nariz com o antebraço e deixando uma mancha branca na bochecha.
— Isso definitivamente não responde à minha pergunta.
Ele riu, tirando o paletó.
— Queria fazer algo especial.
Disse ela.
Sobre a mesa, repousava um bloco disforme e escuro que possivelmente pretendia ser um bolo, mas lembrava bastante um pedaço de carvão vegetal.

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